Alta de setembro foi impulsionada por gargalos logísticos, conflitos e impactos do fenômeno El Niño.
247 – Os preços mundiais dos alimentos registraram alta em setembro e atingiram o patamar mais elevado em quase quatro anos, impulsionados por interrupções logísticas, conflitos e incertezas climáticas que afetaram diretamente os mercados agrícolas globais, informa a Folha de São Paulo com base em dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
O temor em relação aos efeitos do fenômeno climático El Niño elevou as cotações internacionais do açúcar ao nível mais alto registrado nos últimos 18 meses. Paralelamente, os desdobramentos e o colapso do comércio no Mar Negro, decorrentes da guerra no Oriente Médio, levaram os contratos futuros do trigo a atingir, no início do mês passado, o pico dos últimos três anos.
Diante desse cenário, o índice de preços dos alimentos da FAO — indicador que monitora as variações mensais das cotações internacionais de uma cesta de commodities agrícolas — alcançou uma média de 136 pontos em setembro, ante 134 pontos registrados em agosto (após revisão). O resultado representa o maior nível atingido pelo índice desde novembro de 2022.
“Estamos observando um aumento persistente e cada vez mais disseminado dos preços globais das commodities, à medida que as interrupções no estreito de Hormuz e no Mar Negro se somam aos choques climáticos, pressionando a energia, o transporte e as principais commodities alimentares”, comentou o economista-chefe da FAO, Maximo Torero.
O especialista alertou ainda para os reflexos diretos dessa tendência sobre a inflação ao consumidor final. “Se persistirem, essas pressões logo serão repassadas aos preços dos alimentos ao consumidor, sobretudo em países dependentes da importação de alimentos e energia”, afirmou Torero.
Analisando os setores específicos, o índice de preços do açúcar da agência internacional saltou 6,1% em relação ao mês de agosto, engatando a terceira elevação mensal consecutiva. O movimento foi sustentado por condições climáticas adversas que ameaçam limitar a oferta do produto nas principais regiões produtoras do mundo.
O indicador de referência para os preços dos cereais também apresentou alta significativa, subindo 5,1% no mês. A elevação refletiu a redução das perspectivas de produtividade para as lavouras de milho nos Estados Unidos, aliada às pressões causadas pelas restrições e interrupções no transporte marítimo e comércio de grãos na região do Mar Negro.
Por sua vez, os preços dos óleos vegetais tiveram um avanço moderado de 0,9%. A alta do segmento foi impulsionada principalmente pelo óleo de palma, em meio à forte demanda global e às preocupações com os riscos operacionais e produtivos no Sudeste Asiático por conta do El Niño.
Em sentido oposto à tendência geral, o índice global de preços da carne da FAO registrou recuo de 1,1%. A queda foi puxada pela baixa nos preços das aves, resultado associado, em parte, à retração na demanda da União Europeia após a entrada em vigor de novas regras de importação no bloco.
Em relatório separado, a FAO manteve praticamente inalterada sua estimativa para a produção mundial de cereais em 2026, projetada em 2,98 bilhões de toneladas. Embora o volume represente uma queda de 2,1% em relação ao recorde do ano anterior, ainda se consolida como a segunda maior safra já registrada na história.
Por fim, a agência das Nações Unidas reduziu em 0,7% a sua previsão para o comércio mundial de cereais no ciclo 2026/27 em comparação com o mês anterior, justificando a revisão por expectativas menores quanto às exportações globais de trigo e milho diante dos obstáculos logísticos no Mar Negro.
FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil
FONTE: https://www.brasil247.com/economia/precos-globais-dos-alimentos-disparam-e-atingem-o-maior-nivel-em-quatro-anos/