ACM dizia que, se a notícia não aparecesse no Jornal Nacional, o fato não existia. Brizola fazia da posição da Globo uma bússola invertida. A dois dias da eleição, o último debate da maior emissora do país foi cancelado — e a campanha continuou fora de sua tela.
“Se não saiu no Jornal Nacional, não aconteceu.”
A frase é atribuída a Antônio Carlos Magalhães, que conhecia como poucos o poder político da Rede Globo. A máxima de ACM atravessou décadas porque resumia uma época.
O Jornal Nacional não apenas noticiava acontecimentos. Selecionava, hierarquizava e enquadrava diariamente as notícias que chegavam a dezenas de milhões de brasileiros. Para grande parte do país, ajudava a determinar quais e como os acontecimentos mereciam existir.
Leonel Brizola, adversário histórico da Globo, também ficou associado a outra frase:
“Se a Globo for a favor, sou contra. Se for contra, sou a favor.”
ACM e Brizola estavam em campos políticos diferentes. Mas as duas frases diziam, por caminhos opostos, essencialmente a mesma coisa:
a Globo tinha poder.
Poder para transformar notícia em acontecimento nacional. Para ampliar ou reduzir personagens. Para definir a agenda do dia seguinte. Poder suficiente para que aliados quisessem estar ao seu lado e adversários precisassem enfrentá-la.
Na noite de 1º de outubro, esse poder encontrou um limite que talvez nenhum dos dois imaginasse.
Uma eleição sem a Globo
Faltavam três dias para o primeiro turno.
A Globo havia reservado seu horário nobre para o último debate presidencial. Pela tradição construída durante décadas, seria um dos grandes acontecimentos da reta final da campanha.
Não foi.
Lula decidiu não comparecer e concedeu entrevista ao Flow Podcast. Flávio Bolsonaro, que havia confirmado presença, desistiu horas antes.
Decisões judiciais de última hora alteraram as condições previstas para o encontro. O TSE proibiu a Globo de manter um púlpito vazio identificado com o nome de Lula e de dirigir perguntas ao candidato ausente. Outra decisão assegurou a participação de Renan Santos, candidato que faz acusações contundentes a Flávio Bolsonaro.
A Globo alegou “insegurança jurídica” e cancelou o debate.
Entrou a novela.
Leonardo Attuch escreveu no Brasil 247 que naquela noite “o império midiático da Globo desmoronou”.
Pode ser uma interpretação forte.
Mas o símbolo também é forte.
A Globo continua sendo uma das empresas de comunicação mais poderosas do Brasil. O Jornal Nacional continua influente. Milhões de brasileiros continuam diante de suas telas.
O que entrou em questão foi outra coisa:
o poder de a Globo determinar onde a política brasileira precisa acontecer.
Lula não trocou o debate pelo silêncio.
Trocou uma tela por outra.
1,6 milhão fora da Globo
Enquanto a Globo exibia novela no horário reservado ao debate, Lula falava no Flow para mais de 1,5 milhão de pessoas simultaneamente no YouTube.
Às 21h39, o contador da plataforma mostrava 1.582.594 espectadores.
Às 22h49, quase duas horas depois do início da entrevista, havia ainda mais: 1.608.627.
Não foi apenas um pico passageiro.
Mais de 1,6 milhão de pessoas continuavam acompanhando um candidato à Presidência por outra tela enquanto o tradicional debate da maior emissora do país havia desaparecido da programação.
Os números do YouTube e os pontos de audiência da televisão não podem ser comparados diretamente. São universos e metodologias diferentes.
Nem é preciso compará-los.
O fato politicamente relevante é outro: um candidato à Presidência conseguiu falar simultaneamente a mais de 1,6 milhão de pessoas sem precisar entrar no estúdio da Globo.
A campanha continuou.
A eleição continuou.
O debate da Globo nem começou. Foi cancelado.
Brizola contra a Globo
A história desse confronto vem de longe.
Em 1982, Leonel Brizola disputava o governo do Rio de Janeiro quando explodiu o caso Proconsult.
A empresa contratada para participar da totalização dos votos tornou-se centro de uma enorme controvérsia sobre a apuração. Brizola denunciou uma tentativa de lhe retirar a vitória.
O episódio permanece historicamente disputado. A Globo rejeita qualquer participação em fraude e cita auditorias e investigações que não comprovaram intencionalidade nos erros. Outras reconstruções históricas sustentam que a apuração paralela e a denúncia pública impediram uma fraude contra Brizola.
Não é necessário resolver aqui uma controvérsia de 44 anos.
Importa que Proconsult se tornou um marco da guerra de Brizola contra a Globo.
Brizola venceu aquela eleição.
A guerra continuou.
1989: Lula, Collor e o Jornal Nacional
Sete anos depois, aconteceu um episódio que a própria Globo hoje inclui em sua seção de “Erros”.
Na primeira eleição presidencial direta depois de 29 anos, Lula enfrentou Fernando Collor no segundo turno.
Depois do último debate, o Jornal Nacional exibiu uma edição que provocou uma das maiores controvérsias da história da televisão brasileira.
A Globo foi acusada de selecionar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula e de conceder ao primeiro cerca de um minuto e meio a mais.
O PT recorreu ao TSE. Artistas da própria Globo protestaram diante da emissora.
Hoje, a Memória Globo reconhece os equívocos daquela cobertura. A consequência também foi histórica: a emissora decidiu não voltar a editar debates políticos daquela maneira.
Trinta e sete anos depois, Lula disputa novamente a Presidência.
E a Globo aparece novamente no centro da história.
Só que desta vez Lula pôde simplesmente dizer:
Não vou.
Brizola entra no Jornal Nacional
Em 1994, foi a vez de Brizola conseguir o que parecia impossível.
Depois de longa disputa judicial, conquistou direito de resposta contra a Globo.
Na noite de 15 de março, Cid Moreira teve de ler, no próprio Jornal Nacional, durante cerca de três minutos, o texto assinado pelo governador contra Roberto Marinho e a emissora.
Era uma cena extraordinária.
Mas aquela vitória demonstrava, paradoxalmente, o tamanho do poder que Brizola combatia.
Para responder à Globo, Brizola precisava aparecer na Globo.
Trinta e dois anos depois, Lula não precisou.
Foi ao Flow.
A Vênus já não é dona do céu
Um texto que começou a circular pelo WhatsApp depois do cancelamento do debate captou com humor a dimensão simbólica da noite.
Gustavo Balduino chamou-o de “O velório da Vênus Platinada”.
Velório talvez seja demais.
A Globo não morreu.
Mas Balduino encontrou uma imagem melhor:
“A velha Vênus Platinada descobrindo que não é mais dona do céu.”
É disso que estamos falando.
Não do desaparecimento da Globo, mas do fim de um céu ocupado praticamente por um único grande astro.
Vieram internet, YouTube, redes sociais, podcasts, streaming e canais independentes.
Políticos e jornalistas passaram a alcançar milhões de pessoas sem pedir passagem a uma rede de televisão.
A televisão deixou de ser a única grande praça pública eletrônica do Brasil.
Na quinta-feira, 1 de outubro, a consequência dessa transformação apareceu de maneira quase teatral.
A Globo tinha estúdio.
Tinha apresentador.
Tinha câmeras.
Tinha horário nobre.
Tinha seis décadas de história.
Mas não tinha Lula.
Uma coisa é poder, outra é voto
Nada disso permite concluir que o cancelamento do debate decidirá a eleição.
Uma transformação no sistema de comunicação não significa transferência automática de votos.
A disputa permanece apertada.
No Datafolha divulgado nesta quinta-feira, Lula aparece com 45% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 40%. Numa eventual disputa de segundo turno, são 48% a 45%, empate técnico dentro da margem de erro. O levantamento ouviu 2.506 eleitores em 152 municípios.
Há ainda um número importante nesta reta final: 17% dos entrevistados disseram que podem mudar de voto.
É nesse cenário que deve ser compreendido o que aconteceu — ou deixou de acontecer — na Globo.
A dois dias da eleição, o tradicional último debate da maior emissora do país desapareceu.
E a campanha não parou por causa disso.
Se não saiu, aconteceu
Antônio Carlos Magalhães conheceu uma Globo tão poderosa que uma frase atribuída a ele virou definição de uma época:
“Se não saiu no Jornal Nacional, não aconteceu.”
Brizola conheceu a mesma Globo pelo lado oposto.
Enfrentou-a em 1982.
Obrigou-a, pela Justiça, a ler sua resposta no Jornal Nacional em 1994.
E ficou associado a outra frase que atravessou o tempo:
“Se a Globo for a favor, sou contra. Se for contra, sou a favor.”
Talvez Brizola estivesse mesmo gargalhando, como imaginou Gustavo Balduino.
Porque na noite de 1º de outubro aconteceu algo difícil de imaginar no Brasil de ACM e Brizola.
A Globo marcou o debate.
Lula não foi.
Decisões judiciais mudaram as condições do encontro.
A Globo cancelou.
Entrou a novela.
E mais de 1,6 milhão de pessoas acompanhavam Lula por outra tela.
Leonardo Attuch pode ter exagerado ao decretar, numa única noite, o desmoronamento de um império midiático.
Ou pode ter identificado, numa única noite, o símbolo de um processo que levou décadas.
A Globo não desapareceu.
O Jornal Nacional não perdeu sua influência.
A Vênus Platinada continua no céu.
Só não é mais dona dele.
E a velha máxima atribuída a ACM pode finalmente ser virada pelo avesso:
Se não saiu na Globo, aconteceu.
FOTO: Gustavo Tapioca
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/se-nao-saiu-na-globo-aconteceu/