Nova ofensiva de Washington mira redes de petróleo, tecnologia, transporte marítimo e finanças ligadas a Teerã em países da Ásia, Europa e Oriente Médio.
247 – A mais recente rodada de sanções anunciada pelo governo de Donald Trump contra o Irã atinge quase 60 indivíduos, empresas e embarcações acusados por Washington de sustentar receitas petrolíferas, compras militares, programas nuclear e de mísseis e operações cibernéticas de Teerã.
As informações são da Al Jazeera. As medidas foram anunciadas pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que descreveu a campanha como uma política de “asfixia econômica” contra o Irã, em meio ao impasse diplomático provocado pela guerra envolvendo EUA, Israel e Irã, que se aproxima de seis meses.
“Em todo o mundo, nosso objetivo é cortar todos os laços econômicos que sustentam esse regime tirânico até que Teerã esteja sozinha”, afirmou Bessent em entrevista coletiva.
Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, os alvos estão distribuídos por países e territórios como Irã, China, Hong Kong, Singapura, Malásia, Reino Unido, França, Síria, Ucrânia, Grécia, Ilhas Marshall, Suíça e Emirados Árabes Unidos. A ofensiva se concentra em cinco áreas consideradas estratégicas para a economia iraniana: ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo.
Rede de compras no Oriente Médio e no Leste Asiático
Um dos principais focos da nova rodada é uma rede de aquisição formada por mais de 20 pessoas e entidades no Oriente Médio e no Leste Asiático. De acordo com Washington, esse grupo teria ajudado o Irã a obter tecnologia sensível de uso duplo, com aplicações civis e militares, para pesquisas nucleares e desenvolvimento de mísseis balísticos.
“O grupo permitiu que o Irã obtivesse tecnologia de uso duplo altamente sensível por meio de um amplo sistema de empresas de fachada, canais financeiros ocultos e intermediários logísticos no Leste Asiático, permitindo que instituições militares iranianas sancionadas disfarçassem usuários finais e burlassem controles globais de exportação”, afirmou o Tesouro dos EUA em comunicado.
Bessent disse que sua pasta mapeou redes, facilitadores e canais financeiros usados pelo Irã para contrabandear petróleo e contornar sanções. A nova lista, no entanto, deixou de fora instituições financeiras chinesas suspeitas de facilitar o comércio de petróleo iraniano, uma omissão considerada relevante porque a China é há anos a maior compradora do petróleo do Irã.
Ministérios e empresas iranianas estão na lista
No Irã, os alvos principais incluem órgãos do próprio governo, como o Ministério da Inteligência e Segurança e o Ministério da Defesa e Logística das Forças Armadas. Também foram sancionadas organizações associadas a essas estruturas.
Entre elas está a empresa iraniana de logística Noavaran Axis Private Joint Stock Company, conhecida como BRE Line. O Tesouro dos EUA acusa a companhia de facilitar remessas para a Organização de Pesquisa e Inovação Defensiva, já sancionada e vinculada ao Ministério da Defesa iraniano.
Washington também incluiu na lista indivíduos ligados ao Ministério da Inteligência, como Mohammad Hossein Aslani, Reza Kadkhodai e Arman Kahzadian, acusados de envolvimento em atividades cibernéticas.
Hong Kong aparece como polo de intermediação
Em Hong Kong, cerca de uma dúzia de empresas foi sancionada. A Sweet Ocean Industrial Ltd é apontada pelos EUA como intermediária na compra de equipamentos sensíveis destinados à Universidade de Tecnologia Malek Ashtar, no Irã, instituição já sancionada pelos Estados Unidos, pela União Europeia e pela ONU.
Também foram atingidas empresas relacionadas a essa rede, como RPT Technology Ltd e Shenzhen Sweet Ocean Technology Ltd. Outras companhias sediadas em Hong Kong, como Feili Co Ltd, Minvur Ltd, Feisu Ltd e Guska Co Ltd, foram acusadas de integrar uma rede de aquisição em benefício de usuários finais iranianos.
Três empresas foram sancionadas por supostamente facilitar pagamentos para redes clandestinas de “bancos paralelos” do Irã. A Tiany Technology Ltd e a MT Trading and Logistics HK Ltd também entraram na lista por atuarem como intermediárias da Shenzhen Sweet Ocean Technology Ltd.
No setor marítimo, a Shipoil Ltd, registrada em Hong Kong, foi acusada de coordenar abastecimento e outros serviços para navios que transportariam petróleo cru e derivados iranianos em benefício de entidades já sancionadas. Também foram citadas Sky Oil and Gas Asia, Vienna Shipping Co e Riqueza Group Ltd.
Empresas chinesas são acusadas de apoiar compras e logística
Na China continental, as entidades sancionadas aparecem principalmente por suposto apoio a redes de compras, logística e transporte ligadas aos programas nuclear e de mísseis do Irã e à geração de receita com petróleo.
A Shenzhen Sweet Ocean Technology Ltd é descrita por Washington como peça central da rede de aquisição. A empresa atua com instrumentos de teste, equipamentos de laboratório e produtos ópticos e eletrônicos, além de funcionar como agente de compras para clientes iranianos. Seu diretor, Tian Jianbai, também foi sancionado.
Outra empresa chinesa atingida é a Shenzhen Huamei Lianyun International Logistics Co Ltd, acusada de prestar serviços à BRE Line e de facilitar remessas para a Organização de Pesquisa e Inovação Defensiva do Irã. Também foram incluídas na lista as empresas Shenzhen Bositong Logistics Co Ltd, Bositong Supply Chain Shenzhen Co Ltd e a companhia de navegação Lilimoon Navigation Inc.
Singapura, Malásia e redes do petróleo
Em Singapura, as sanções miram empresas registradas no país por atuação no setor petrolífero iraniano ou por vínculos com pessoas já relacionadas ao comércio de petróleo do Irã.
A Azure Shipping Pte Ltd foi citada por seu trabalho com a National Iranian Tanker Company. Seu ex-proprietário, Mansoor Tayabbhai Gandhi, também foi sancionado, junto com duas companhias de navegação sob seu controle: Trans Arctic Global Marine Services e Arc Chartering.
A Wellbred Capital Pte Ltd, sediada em Singapura, e suas subsidiárias na Suíça e nos Emirados Árabes Unidos foram atingidas por supostamente atuar em nome do magnata iraniano do petróleo Mohammad Hossein Shamkhani.
Na Malásia, a Vast Mart Sdn Bhd foi acusada de transferir recursos para a Sweet Ocean, de Hong Kong, em “múltiplas ocasiões”.
Reino Unido, França, Síria, Ucrânia, Ilhas Marshall e Grécia
No Reino Unido, a Estanica Trading Ltd foi incluída na lista por operar uma embarcação com bandeira da Gâmbia que teria transportado centenas de milhares de barris de petróleo iraniano.
Na França, a La Nivernaise de Raffinage SAS, empresa de óleo de cozinha, foi sancionada por ser controlada pela filial suíça da Wellbred Trading.
O empresário Mohammad Ahmed Suhil Fattouh, cidadão sírio radicado nos Emirados Árabes Unidos, foi acusado de atuar como corretor para frotas clandestinas iranianas, incluindo estruturas ligadas à National Iranian Oil Company e ao braço de vendas de petróleo do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã.
O empresário Ivan Obukhov, ucraniano também baseado nos Emirados Árabes Unidos, foi acusado de intermediar operações para frotas clandestinas iranianas, inclusive em benefício da Guarda Revolucionária Islâmica.
Nas Ilhas Marshall, a Sifra Shipping Co foi sancionada por operar o navio SIFRA, com bandeira de Botsuana, que teria transportado centenas de milhares de barris de gás liquefeito de petróleo e etileno iranianos.
Na Grécia, os cidadãos Almpertos Tsoris e Georgios Tsoris foram associados à rede da Shipoil e acusados de coordenar operações com entidades iranianas sancionadas e prestar serviços de abastecimento marítimo.
EUA poupam bancos chineses e evitam prazo para novas punições
Apesar da abrangência da lista, instituições financeiras chinesas suspeitas de facilitar o comércio de petróleo iraniano ficaram fora da nova rodada de sanções. Bessent se recusou a dizer quais países poderiam ser alvo de futuras sanções secundárias ou quando essas medidas poderiam entrar em vigor.
Segundo ele, Washington dará tempo para que países e empresas rompam seus vínculos comerciais com o Irã. “Por que eu iria explodir o sistema financeiro global?”, afirmou.
A cautela em relação à China tem peso estratégico. Pequim é a principal compradora de petróleo iraniano e também fornecedora relevante de minerais críticos, o que aumenta o risco de retaliações em caso de escalada direta contra seu sistema financeiro.
Irã rejeita ofensiva e promete resistir
O governo iraniano rejeitou as novas sanções. O ministro da Economia, Ali Madanizadeh, afirmou que as medidas não surpreendem Teerã e que o país tem meios para enfrentá-las.
“As sanções americanas contra nós não são novidade. Temos programas para contrariar as sanções americanas, e Washington não pode atingir seus objetivos cortando as artérias da nossa economia”, declarou ele, segundo a agência Fars.
A porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajerani, também afirmou que o país atravessará a nova fase de pressão econômica. “O governo e o presidente, com sabedoria e determinação, guiarão o país também nesta fase. Não negamos as dificuldades econômicas; mas, com bom senso e preservando a unidade, como em dias passados, atravessaremos esse intenso corredor de provações”, escreveu no X.
Sardar Mohebi, porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica, afirmou que o recurso dos EUA à guerra econômica demonstra derrota no campo militar.
À Al Jazeera, Ali Akbar Dareini, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos de Teerã, disse que o Irã está habituado a lidar com esse tipo de pressão. “O Irã tem um doutorado em contornar sanções, portanto o Irã tem absoluta certeza de que sairá vitorioso e de que os EUA fracassarão mais uma vez em seus esforços para sufocar o Irã”, afirmou.
“O objetivo das sanções é provocar um colapso econômico e causar tumultos no Irã, mas isso se baseia em um erro de cálculo enorme, massivo, como a guerra militar de agressão dos Estados Unidos contra o Irã em 28 de fevereiro, que fracassou”, acrescentou.
China critica medidas unilaterais
A China afirmou que sanções dos EUA não resolverão o conflito. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, disse que a cooperação entre Pequim e Teerã ocorre dentro do direito internacional.
“A cooperação entre China e Irã sempre foi conduzida dentro do marco do direito internacional e não deve sofrer interferência ou ser interrompida”, afirmou Lin Jian.
“A China já declarou diversas vezes que se opõe firmemente a sanções unilaterais ilegais. A China tomará todas as medidas necessárias para salvaguardar firmemente seus próprios direitos e interesses”, acrescentou.
O ex-relator especial da ONU e advogado estadunidense Alfred-Maurice de Zayas afirmou que as medidas podem ter efeito contrário ao esperado por Washington. “Trump está impondo medidas adicionais ao Irã e ameaçando países que não se curvam às ordens dos EUA. Isso terá um efeito bumerangue, porque cada vez mais países se sentem ofendidos pela arrogância dos EUA e se ressentem das ameaças. Eles chegam a conclusões racionais: desvincular-se do dólar”, escreveu no X.
Ele classificou as ações de Trump como “criminosas” e “coercitivas” e afirmou que “cada vez mais países” entendem que o Irã luta por sua “soberania e autodeterminação”.
Sanções contra o Irã vêm desde 1979
O Irã está sob sanções dos EUA desde a revolução de 1979, que derrubou o xá Reza Pahlavi, aliado de Washington. Ao longo das décadas, Estados Unidos, União Europeia e ONU adotaram medidas contra Teerã, sobretudo relacionadas aos programas nuclear e de mísseis.
Em 1995, o então presidente Bill Clinton proibiu comércio e investimento dos EUA no Irã. Nos anos 2000, Washington ampliou as restrições, incluindo organizações associadas à Guarda Revolucionária Islâmica e bancos estatais iranianos.
O acordo nuclear de 2015, firmado pelo Irã com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, Alemanha e União Europeia, trouxe alívio temporário. Em 2018, porém, no primeiro governo Trump, os Estados Unidos abandonaram o pacto e retomaram a chamada política de “pressão máxima”, com sanções contra exportações de petróleo, setor marítimo e sistema financeiro iraniano.
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FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/quais-sao-as-60-entidades-visadas-na-mais-recente-onda-de-sancoes-de-trump-contra-o-ira/