Dirigente do MST defende reindustrialização, ciência, tecnologia e trabalho de base para enfrentar a extrema direita.
247 – O dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, afirmou que uma eventual vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026 terá importância estratégica não apenas para o Brasil, mas para toda a América Latina. Para ele, no entanto, uma nova vitória eleitoral da esquerda precisará ser acompanhada pela construção de um projeto nacional de desenvolvimento capaz de superar os limites das políticas adotadas nas últimas décadas.
As declarações foram dadas ao programa Trilhas da Democracia, em uma ampla entrevista dedicada à conjuntura brasileira e latino-americana. Ao longo da conversa, Stedile analisou o avanço da extrema direita, a política dos Estados Unidos para a região, o impacto das tarifas comerciais impostas pelo governo Donald Trump, os desafios enfrentados pela juventude e as perspectivas para um eventual quarto mandato de Lula.
Na avaliação do dirigente, a América Latina atravessa um período de instabilidade relacionado a transformações mais profundas na economia mundial. Ele associa esse cenário à crise estrutural do capitalismo ocidental e ao enfraquecimento relativo da hegemonia dos Estados Unidos diante da ascensão de outros pólos de poder, principalmente China, Rússia e os BRICS.
Segundo Stedile, diante desse processo Washington voltou a concentrar esforços sobre a América Latina e seus recursos naturais.
“Eles se voltaram com mais força para o nosso continente, porque é ainda o continente onde eles têm possibilidades de exercer o seu poder econômico e militar”, afirmou.
Na leitura do dirigente do MST, a política norte-americana representa uma atualização da antiga Doutrina Monroe, baseada na tentativa de preservar a América Latina como área de influência prioritária dos Estados Unidos. O objetivo central, segundo ele, seria manter acesso privilegiado a recursos como petróleo, minérios, terras raras, água e biodiversidade.
Stédile também relativizou a interpretação segundo a qual as recentes vitórias eleitorais de forças conservadoras em países latino-americanos indicariam uma guinada ideológica permanente da população para a direita. Para ele, os resultados precisam ser compreendidos em meio à ausência de projetos econômicos capazes de oferecer respostas estruturais às sociedades da região.
“Não são derrotas históricas, são derrotas conjunturais”, resumiu.
Na sua avaliação, as forças progressistas deveriam aproveitar o momento para promover um debate mais profundo sobre qual modelo de desenvolvimento pretendem apresentar aos países latino-americanos.
“Mais do que nós ficarmos preocupados onde ganhamos, onde perdemos pontualmente, nós deveríamos estimular entre as forças progressistas da América Latina um debate sobre o projeto”, defendeu.
Para Stédile, parte considerável dos problemas enfrentados pelos países da região não poderá ser solucionada isoladamente. Ele apontou a integração latino-americana como uma dimensão essencial de qualquer estratégia de longo prazo envolvendo governos progressistas, partidos políticos, movimentos populares e organizações da sociedade.
Nesse cenário, a disputa presidencial brasileira assume peso especial. O dirigente considera que uma vitória de Lula funcionaria como contraponto político ao avanço da extrema direita no continente.
“A vitória do Lula vai ser uma vitória muito importante por tudo que representa o Brasil na conjuntura latino-americana”, disse.
Stédile destacou o tamanho territorial, econômico e populacional do Brasil, além da dimensão de suas reservas naturais, para explicar por que o país ocupa papel central na disputa geopolítica regional.
Segundo ele, uma eventual reeleição de Lula também ajudaria a contestar a ideia de que existe uma tendência inevitável de crescimento permanente da direita.
“A vitória do Lula ajuda a contrabalançar essa simbologia de que a esquerda está derrotada na América Latina”, afirmou.
O dirigente do MST, porém, argumenta que a próxima etapa política não poderá se limitar à ampliação dos programas sociais construídos pelos governos petistas. Para ele, iniciativas como Bolsa Família, políticas habitacionais e programas de transferência de renda são fundamentais, mas insuficientes diante das transformações econômicas e tecnológicas em curso.
“Não basta mais nós eleger governos para seguir com mais do mesmo, mais Bolsa Família, mais botijão de gás, mais moradia. Isso não é suficiente”, afirmou.
Na avaliação de Stedile, o desafio agora é formular um projeto capaz de modificar estruturas econômicas e sociais e estabelecer objetivos para as próximas décadas.
“É preciso desenhar um projeto de país que altere as estruturas econômicas e sociais e que projete a nossa sociedade para o futuro, como fazem os chineses, pensar daqui a 20, 30 anos o que vai ser”, disse.
Um dos pilares desse novo projeto, segundo ele, teria de ser a reindustrialização. Stédile avaliou que o chamado neodesenvolvimentismo adotado em governos progressistas no início do século foi importante para enfrentar o neoliberalismo, ampliar políticas públicas e fortalecer o mercado interno, mas teria atingido seus limites históricos.
“Ele teve o seu tempo histórico, que foi virtuoso, mas insuficiente”, afirmou.
Na avaliação do dirigente, o Brasil precisa agora avançar para um projeto de desenvolvimento nacional sustentado pela indústria, ciência, tecnologia, educação e planejamento público.
“Sem a indústria não vamos para a frente”, declarou.
Mesmo sendo dirigente de um movimento ligado à luta pela terra, Stédile disse que a industrialização também precisa chegar ao campo. Em sua visão, a agricultura familiar não pode permanecer restrita à produção de matérias-primas, mas deve estar articulada a cooperativas e agroindústrias capazes de processar alimentos, gerar renda e criar empregos qualificados.
Ao abordar o tarifaço promovido pelo governo Donald Trump, Stedile argumentou que as medidas não devem ser vistas apenas como instrumentos de política comercial. Na sua avaliação, as tarifas fazem parte de uma estratégia mais ampla da política externa norte-americana.
“O tarifaço não tem muito a ver com o comércio”, afirmou.
Stédile relacionou as tarifas aos gastos militares dos Estados Unidos e ao esforço de Washington para financiar sua política internacional. Ele considera que o governo norte-americano busca transferir parte desses custos para outros países através da elevação das tarifas de importação.
Apesar disso, o dirigente afirmou que o governo brasileiro tem adotado uma resposta adequada ao evitar uma escalada imediata.
“O governo brasileiro está se comportando bem, está levando com parcimônia e, sobretudo, não está caindo na pegadinha do enfrentamento”, avaliou.
Na sua visão, o Brasil deve aproveitar as dificuldades impostas às exportações para fortalecer o mercado interno. Setores afetados pelas tarifas poderiam receber estímulos para direcionar parte da produção ao consumo nacional.
Stédile citou como exemplo a indústria de vestuário. Empresas que deixassem de exportar para os Estados Unidos poderiam fornecer uniformes para estudantes da rede pública.
“Em vez de uniforme para os gringos, faça uniforme para as crianças brasileiras”, exemplificou.
A mesma lógica poderia ser aplicada, segundo ele, à madeira e a outros produtos atingidos pelas tarifas, com maior utilização em escolas, habitação popular e projetos de infraestrutura.
O dirigente considera que a disputa envolvendo Trump também pode produzir efeitos políticos internos favoráveis ao governo Lula. Ele criticou a aproximação da família Bolsonaro com setores do governo norte-americano e avaliou que esse comportamento pode afastar parcelas do empresariado brasileiro da extrema direita.
“É patética a ação do Bolsonaro e da família, torcendo pelos Estados Unidos e se articulando com os Estados Unidos”, afirmou.
Segundo Stedile, setores empresariais ligados à produção tendem a priorizar estabilidade econômica e política, diferentemente de segmentos vinculados à especulação financeira.
Outro eixo importante da entrevista foi a situação da juventude. O dirigente chamou atenção para a precarização do trabalho, a expansão das plataformas digitais e a dificuldade de jovens projetarem perspectivas de longo prazo.
“O problema é que a juventude está desanimada porque não vê futuro”, disse.
Para Stédile, a expansão de trabalhos por aplicativos não pode ser apresentada como solução estrutural para o emprego juvenil.
“A uberização ou a terceirização não resolve”, afirmou.
Ele contestou ainda a ideia de que os jovens rejeitam vínculos formais de trabalho.
“Também é mentira que a juventude não queria CLT”, disse, lembrando direitos como férias, descanso remunerado e aposentadoria.
Na sua avaliação, a criação de empregos qualificados depende diretamente da retomada industrial.
“Emprego de qualidade, só com reindustrialização”, afirmou.
A ampliação do acesso ao ensino superior também integra essa estratégia. Stédile defende maior presença das universidades públicas na formação de profissionais para setores considerados estratégicos e citou a necessidade de formar engenheiros e técnicos vinculados às novas cadeias industriais.
Ele criticou, porém, a expansão indiscriminada do ensino superior a distância, afirmando que a formação universitária depende também da convivência entre estudantes, professores e comunidades acadêmicas.
No campo, a estratégia proposta pelo dirigente passa pela combinação entre acesso à universidade, políticas como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) e criação de agroindústrias cooperativas.
Para ele, essas iniciativas podem oferecer perspectivas econômicas para jovens que desejam permanecer nas comunidades rurais.
Stédile também fez duras críticas à expansão das plataformas de apostas esportivas. Segundo ele, as chamadas bets produzem impactos financeiros e sociais sobre famílias de baixa renda e deveriam ser proibidas.
“Bet é uma droga, afeta a saúde mental das pessoas além da poupança dos pobres. É uma ratoeira de enganar pobre”, afirmou.
Ao tratar especificamente da disputa política contra a extrema direita, Stédile defendeu uma mudança na forma de comunicação da esquerda. Para ele, apenas denunciar adversários ou disputar argumentos nas redes sociais não será suficiente.
“Nós não vamos ganhar deles só na disputa retórica”, afirmou.
A esquerda, argumentou, precisa apresentar um projeto econômico capaz de demonstrar concretamente como melhorar a vida da população.
“Nós vamos ganhar deles se nós debatermos com a juventude, com a sociedade, com a periferia, que nós temos um projeto de país e que vai construir o futuro”, disse.
Além disso, Stédile defendeu maior utilização da cultura, da música, do teatro, da poesia e de outras manifestações artísticas como instrumentos de mobilização política.
“Nós vamos ganhar as massas, não pela cabeça. Nós vamos ganhar as massas pelo coração”, afirmou.
Na reta final da entrevista, o dirigente fez um chamado para que a militância de esquerda intensifique a organização popular durante a campanha eleitoral.
Ele resumiu a estratégia em três tarefas: organizar o povo, promover formação política e retomar o trabalho de base.
“Sem povo organizado não haverá mudança. Tu pode botar Jesus Cristo de presidente e a Virgem Maria de ministra da Fazenda. Não vai resolver sem organização do povo”, disse.
Stédile também alertou para o risco de a esquerda depositar confiança excessiva nas plataformas digitais.
“Nós não vamos ganhar as eleições pelas redes sociais. Esse é o campo da direita”, afirmou.
Embora considere necessário disputar esses espaços, ele argumenta que o diferencial das forças progressistas deve estar na presença territorial e nas relações pessoais.
“O diferencial é o trabalho de base, é a conversa, olho no olho, visitar o vizinho, fazer o trabalho de base lá na periferia”, declarou.
Para Stédile, a disputa eleitoral de 2026 pode funcionar como ponto de partida para uma discussão muito mais ampla sobre os rumos do Brasil. O principal desafio, segundo ele, será transformar uma eventual vitória de Lula em força política suficiente para combinar crescimento econômico, industrialização, ciência, soberania nacional, geração de empregos e organização popular.
“Política é relação social, não é relação digital”, concluiu.
FOTO: Valter Campanato/ABr
FONTE: https://www.brasil247.com/entrevistas/stedile-vitoria-de-lula-precisa-abrir-caminho-para-um-novo-projeto-de-pais/