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Resultados conjunturais e transformações estruturais

Há uma diferença entre o horizonte temporal dos cidadãos e o dos formuladores de políticas.

Se bons resultados conjunturais oferecem melhores condições de vida à população brasileira, ela se importa em alterar a trajetória de longo prazo marcada pela desindustrialização, pela dependência tecnológica e pela elevada financeirização?

Essa é uma questão central da Economia Política. A resposta mais plausível é: a maioria da população tende a priorizar os resultados concretos de curto e médio prazo, enquanto a preocupação com a trajetória estrutural de longo prazo concentra-se nas elites políticas, econômicas, empresariais e intelectuais.

Há uma diferença entre o horizonte temporal dos cidadãos e o dos formuladores de políticas. Para a maioria das famílias, os critérios de avaliação do governo costumam ser bastante pragmáticos. Há emprego? O salário compra mais? Os alimentos estão acessíveis? É possível financiar uma casa ou um automóvel? O SUS funciona melhor? A violência diminuiu? Os filhos conseguem estudar?

Se essas respostas forem predominantemente positivas, é natural a avaliação do governo também melhorar – e reelegê-lo. Poucos eleitores decidem seu voto com base em indicadores como densidade industrial, intensidade tecnológica das exportações ou participação da manufatura no PIB.

Enquanto os motores da economia americana e europeia são impulsionados por tecnologia avançada, indústria de alto valor agregado e serviços financeiros, o Brasil baseia sua economia interna fortemente no setor terciário tradicional (comércio e serviços urbanos). Seu comércio externo possui grande dependência do agronegócio e da extração de commodities, como petróleo e minério.

A diferença estrutural pode ser dividida nestes pilares principais. No Brasil, o setor de serviços responde por cerca de 70% do PIB, porém é concentrado em atividades de baixo valor e baixa produtividade. Na Europa e nos EUA, o setor de serviços é liderado por tecnologia, finanças globais, saúde e Pesquisa & Desenvolvimento, geradores de altos salários e forte inovação.

A indústria brasileira representa cerca de 23,4% do PIB, mas é fortemente voltada para o processamento primário (extrativa, eletricidade e gás, esgoto, construção), porque a indústria de transformação só representa 13,7% do valor adicionado. Em contraste, a indústria europeia e americana é focada em bens de capital, aeroespacial, biotecnologia e semicondutores.

No Brasil, o agronegócio atua como o principal motor do balanço comercial. Compõe, quando somada toda a sua cadeia (agroindústria e agrosserviços), cerca de 24% da economia nacional – somente a agropecuária pesa 7,1% do VA.

A produtividade por hora trabalhada no Brasil é equivalente a cerca de 20% a 25% da produtividade americana. Enquanto as economias desenvolvidas focam em inovação tecnológica para aumentar o rendimento, o crescimento brasileiro historicamente depende da expansão de terras cultivadas e exploradas (inclusive o pré-sal) e do aumento da força de trabalho em serviços urbanos primários.

Segundo dados recentes do IBGE, a dinâmica das Contas Nacionais provém de saltos pontuais na agropecuária aliados ao consumo das famílias. Essa configuração deixa o Brasil vulnerável a variações climáticas e à volatilidade dos preços internacionais das commodities.

Isso não significa que essas questões estruturais sejam irrelevantes. Implica que seus efeitos chegam à população de forma indireta e com defasagem temporal.

Esse fenômeno pode ser formulado como um paradoxo do desenvolvimento. Uma economia pode crescer moderadamente, gerar empregos, reduzir a pobreza, controlar a inflação, mesmo enquanto perde participação industrial, importa parcela crescente de bens tecnológicos, aumenta remessas de lucros ao exterior e reduz seu conteúdo tecnológico doméstico.

Durante algum tempo, essas duas trajetórias podem coexistir. A razão é que outras fontes de dinamismo compensam a perda industrial: agronegócio altamente produtivo, mineração, petróleo, serviços urbanos massivos, economia digital, consumo interno, políticas redistributivas e crédito. Enquanto essas fontes sustentam renda e emprego, a população percebe melhora efetiva das condições de vida.

Ela passa a se importar com problemas estruturais quando isso deixa de ser uma discussão abstrata e produz consequências visíveis. Por exemplo, se a economia encontra dificuldade de criar empregos qualificados, se os salários estão estagnados porque há baixo crescimento da produtividade, se as crises cambiais afetam a importação de bens de consumo duráveis, se há também dependência de medicamentos ou semicondutores importados, se surge vulnerabilidade na soberania nacional diante de conflitos internacionais, se há perda de capacitação científica diante da revolução da Inteligência Artificial e risco de desemprego.

Exatamente isso ocorreu durante a pandemia. Subitamente, ficou claro o malfeito por um presidente eleito, mas incapacitado para o cargo. Questões aparentemente técnicas — produção nacional de vacinas, respiradores, princípios ativos farmacêuticos, chips — tornaram-se preocupações da população em geral, porque o dito cujo era indiferente à mortandade. No Brasil, a pandemia de Covid-19 causou oficialmente mais de 716.000 mortes.

A financeirização altera essa percepção. Tratar o sistema financeiro como um circuito indispensável da economia ajuda a qualificar o debate.

A criticada “financeirização” não produz apenas efeitos parasitários, como recompra de ações. Ela também proporciona crédito às famílias, financiamento habitacional, meios eletrônicos de pagamento, aplicações em reservas financeiras para milhões de pessoas, inclusão bancária via Pix e bancos digitais e expansão do consumo. Grande parte da população experimenta esses benefícios diretamente.

Quando a financeirização se torna abusiva, podem surgir juros persistentemente elevados, menor alavancagem financeira para investimento produtivo, valorização de ativos financeiros superior ao retorno da produção e concentração patrimonial. Novamente, trata-se de um processo cujos custos aparecem lentamente.

Quanto à questão política, os governos democráticos, como o de Lula III, enfrentam um problema inerente. Os mandatos duram quatro anos. As transformações estruturais exigem, geralmente, décadas; às vezes, uma geração inteira.

Daí a tendência de privilegiar políticas capazes de produzir resultados perceptíveis durante o ciclo eleitoral. Isso não decorre necessariamente de irresponsabilidade, mas da própria lógica da democracia representativa.

Sob a perspectiva da abordagem da complexidade sistêmica, a alternativa não é opor bem-estar imediato à transformação estrutural. O problema consiste em criar mecanismos pelos quais um retroalimente o outro.

Por exemplo: transferência de renda ←→ expansão do mercado interno ←→ maior demanda privada ←→ novos investimentos ←→ inovação tecnológica ←→ aumento da produtividade ←→ salários maiores ←→ novo aumento da demanda. Nesse circuito de retroalimentação, políticas sociais deixam de ser apenas redistributivas e passam a integrar uma estratégia de desenvolvimento.

Uma ressalva importante é fazer uma qualificação à premissa implícita na pergunta inicial. É verdade que a maioria da população eleitora não coloca explicitamente a desindustrialização ou a dependência tecnológica no centro de suas preocupações cotidianas.

Contudo, isso não significa que essas questões sejam politicamente irrelevantes. Elas influenciam, ainda que de forma indireta, a capacidade futura de manter empregos de qualidade, elevar salários reais, financiar políticas públicas e sustentar o crescimento.

Assim, uma política de desenvolvimento bem-sucedida tende a perseguir dois objetivos simultaneamente: um é entregar melhorias concretas de curto prazo, para legitimar democraticamente a ação governamental; outro é fortalecer capacidades produtivas, tecnológicas e institucionais de longo prazo, para que essas melhorias sejam sustentadas ao longo do tempo.

Essa combinação evita tanto o imediatismo — não criador de capacidades futuras — quanto o estruturalismo abstrato. Este promete benefícios distantes sem responder às necessidades presentes da população.

A abordagem da Nova Ciência Econômica reconhece que, em sistemas econômicos complexos, o bem-estar corrente e a transformação estrutural não precisam ser objetivos antagônicos. Reforçam-se mutuamente quando as políticas públicas conseguem criar ciclos virtuosos entre demanda, investimento, inovação e produtividade.

FOTO: Agência Brasil

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/resultados-conjunturais-e-transformacoes-estruturais/