Documentos apontam que a cooperação envolveu generais russos e chineses e incluiu cursos de defesa radiológica, química e biológica ligados ao contexto da guerra na Ucrânia.
247 – A Rússia autorizou um programa de treinamento militar secreto de alto nível na China, envolvendo oficiais superiores dos dois países e cursos especializados relacionados à guerra na Ucrânia. A informação foi revelada pela agência Reuters nesta quarta-feira (1º), com base em documentos militares russos e relatos de autoridades europeias.
Segundo a reportagem da Reuters, a iniciativa foi aprovada pessoalmente pelo ministro da Defesa da Rússia, Andrei Belousov, e contou com a participação direta de ao menos quatro generais russos e chineses. Para autoridades europeias ouvidas pela agência, o envolvimento de oficiais de tão alta patente demonstra a importância estratégica que Moscou e Pequim atribuem à cooperação militar bilateral.
A Reuters afirma ter tido acesso a um documento classificado russo que faz referência a um decreto interno emitido por Belousov em agosto de 2025. O texto determina que uma delegação das Forças Armadas russas viajasse à China para participar de treinamentos em instalações do Exército de Libertação Popular.
Um dos cursos detalhados nos documentos ocorreu durante três semanas, em novembro, em uma instalação militar em Pequim, e foi dedicado à proteção radiológica, química e biológica. Relatórios consultados pela Reuters mostram soldados russos assistindo a aulas ministradas por instrutores chineses, analisando um modelo de reator nuclear e recebendo treinamento em “reconhecimento químico”, “reconhecimento radiológico” e proteção de sistemas de ventilação contra contaminação.
De acordo com uma das autoridades europeias citadas pela Reuters, a inclusão de treinamento em guerra radiológica, química e biológica reforça o caráter estratégico da cooperação, já que esse é um dos temas mais sensíveis para as forças armadas de qualquer país.
Os ministérios da Defesa da Rússia e da China não responderam aos pedidos de comentário da agência. Já o Ministério das Relações Exteriores da China negou as informações. Em nota enviada à Reuters, Pequim afirmou que sua posição sobre a guerra na Ucrânia “permaneceu consistente” e declarou que “as alegações relevantes são inteiramente infundadas”. O governo chinês continua afirmando que mantém posição neutra no conflito e que busca atuar como mediador pela paz.
A reportagem lembra que, no mês passado, a própria Reuters já havia informado, com base em documentos militares e dados de serviços de inteligência europeus, que cerca de 200 militares russos participaram de treinamentos na China em novembro, parte dos quais teria sido posteriormente enviada ao front da guerra na Ucrânia.
O Kremlin evitou comentar diretamente aquela reportagem e limitou-se a afirmar que o Ocidente divulgava “informações falsas”. Posteriormente, a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, declarou que Bruxelas havia confirmado, por canais próprios, que os treinamentos realmente ocorreram e que avaliava suas implicações para a segurança europeia. A China respondeu classificando essas declarações como “nada além de difamações”.
Segundo a Reuters, a crescente aproximação militar entre Moscou e Pequim vem aumentando a preocupação dos governos europeus. Embora a China seja um dos principais parceiros comerciais da União Europeia, cresce dentro do bloco o debate sobre a necessidade de responder de forma mais firme ao fortalecimento da cooperação militar sino-russa.
Um terceiro funcionário europeu ouvido pela agência afirmou que a União Europeia precisa deixar de analisar a China apenas sob a ótica econômica e passar a considerar seu papel como um “facilitador decisivo da guerra da Rússia”, expressão anteriormente utilizada por Kaja Kallas.
Os documentos consultados pela Reuters também identificam os responsáveis pela formalização do acordo que sustentou os treinamentos. Segundo autoridades europeias, o entendimento foi assinado em 2 de julho pelo major-general russo Rustam Khusainov e pelo coronel sênior chinês Sun Dayun.
Outros documentos militares russos revelam ainda a participação de oficiais de alta patente nas atividades. O coronel-general Rustam Muradov, vice-comandante das forças terrestres russas, liderou a delegação enviada à China. Já o major-general chinês Li Jinsun, diretor da Academia Militar de Defesa Radiológica, Química e Biológica do Exército de Libertação Popular, participou da cerimônia de abertura de um dos cursos. O major-general russo Vitaly Gerasimov também aparece entre os participantes.
Apesar de reconhecerem a qualidade dos equipamentos, dos simuladores e do elevado nível teórico dos instrutores chineses, relatórios internos russos citados pela Reuters registram uma ressalva importante: a limitada experiência recente de combate da China. Enquanto a Rússia acumula mais de quatro anos de experiência militar contínua na guerra da Ucrânia, as Forças Armadas chinesas não participam de um conflito de grande escala há várias décadas.
FOTO: Brasil 247 / Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/russia-aprovou-treinamento-militar-secreto-de-alto-nivel-na-china/