EUA e Irã intensificam confrontos na rota mais estratégica do mundo, elevando os preços da energia após bloqueios e ataques a navios na região.
247 – O tráfego de embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz, considerado o corredor marítimo mais estratégico do mundo para o transporte de petróleo e gás, registrou uma queda drástica na quinta-feira (16). Apenas três navios de carga realizaram a travessia ao longo do dia, estabelecendo o menor volume de circulação diária registrado desde maio. O esvaziamento da rota ocorre em um momento de forte retração do setor de navegação, com a maior parte dos navios optando por interromper o trajeto ou dar meia-volta para evitar a zona de conflito, informa a agência Reuters.
A paralisia quase total na região é o reflexo direto de uma nova escalada de confrontos entre os Estados Unidos e o Irã. O acirramento das tensões geopolíticas envolve supostos ataques recentes das forças iranianas contra embarcações comerciais e a retomada, por parte de Washington, de um rígido bloqueio ao transporte marítimo ligado a Teerã. Como consequência imediata da interrupção do fluxo de combustíveis, os preços globais da energia voltaram a subir nos mercados internacionais.
Movimentações monitoradas revelam o tamanho do bloqueio
Dados de monitoramento naval detalham o recuo dos navios diante do perigo iminente. O petroleiro “Miraan”, que transporta óleo combustível e está sujeito a sanções internacionais, juntamente com o “Norita”, uma embarcação de menor porte carregada com gás de petróleo liquefeito, conseguiram sair do estreito pela rota iraniana. No entanto, ambos foram forçados a ancorar no Golfo de Omã, local onde se concentra a frota de bloqueio dos Estados Unidos. As informações foram consolidadas pela plataforma de inteligência de dados Kpler.
Outro caso emblemático envolveu o “Arolia”, um navio-tanque de abastecimento que transportava óleo combustível de origem iraquiana — utilizado para o reabastecimento de outras embarcações em alto-mar. De acordo com informações de rastreamento da LSEG, a tripulação decidiu dar meia-volta e retornar ao Golfo poucas horas após ter deixado o estreito.
A gravidade do cenário atual fica evidente quando comparada aos números históricos da região. Na quarta-feira (15) precedente, apenas 11 embarcações cruzaram o estreito, representando uma fração ínfima diante da média histórica de 125 navios que transitavam diariamente pelo local antes do início do conflito. Pelo segundo dia consecutivo, nenhum navio-tanque de grande porte (VLCC) ou cargueiro de gás natural liquefeito (GNL) arriscou a travessia.
Petroleiros buscam rotas alternativas
Apesar do bloqueio severo, o sistema de rastreamento AIS localizou dois grandes VLCCs fora do estreito, cada um transportando uma carga estimada em 2 milhões de barris de petróleo bruto. O navio “Colombia Prosperity”, carregado com óleo bruto de origem saudita, mantém rota em direção a Okinawa, no Japão. Já o “Costa Rica Prosperity”, que transporta petróleo bruto iraquiano do tipo Basra Medium, tem como destino final a Turquia. Divergências em bancos de dados apontam que os navios cruzaram a área crítica entre os dias 13 e 14 de julho.
A infraestrutura de exportação da região também já sente os impactos diretos da violência. O Iraque chegou a suspender brevemente seus carregamentos de óleo bruto após um ataque por drone atingir um navio-tanque atracado em seu terminal de Basra. Os carregamentos foram retomados horas mais tarde.
Irã ameaça ampliar paralisação para o Mar Vermelho
A postura de Teerã indica que a crise energética pode se prolongar e atingir novas proporções globais. Em comunicado oficial divulgado pela agência de notícias Tasnim, a Guarda Revolucionária do Irã subiu o tom das advertências ao mercado internacional, afirmando categoricamente que nenhum petróleo ou gás será exportado pelo Estreito de Ormuz enquanto persistirem os ataques perpetrados pelas forças militares dos Estados Unidos.
Além disso, fontes do setor de segurança alertaram para o risco de o conflito transbordar para outras rotas de navegação essenciais. O governo iraniano sinalizou que, caso a infraestrutura de seu país seja alvo de ataques diretos de Washington, poderá incitar as forças rebeldes houthis no Iêmen a fechar o Estreito de Bab al-Mandeb, localizado na foz do Mar Vermelho. A medida isolaria completamente duas das principais artérias de escoamento energético do planeta.
FOTO: Xinhua/Wen Xinnian
FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/tensao-em-ormuz-trafego-maritimo-desaba-e-ameaca-abastecimento-global-de-petroleo/