Nova instituição internacional, com sede em Xangai, busca estabelecer uma governança multilateral para a IA e consolida o protagonismo da China na definição das regras globais da tecnologia.
247 – O presidente da China, Xi Jinping, anunciou nesta sexta-feira (17) a criação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial (World Artificial Intelligence Cooperation Organization – WAICO), durante a abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), em Xangai. O anúncio representa um novo passo da estratégia chinesa para liderar a construção de uma arquitetura internacional de governança da inteligência artificial, baseada na cooperação multilateral, na segurança tecnológica e no desenvolvimento compartilhado.
A iniciativa foi anunciada após a assinatura, na quinta-feira (16), do acordo constitutivo da organização por 29 países, que passam a integrar a entidade como membros fundadores. A nova organização terá sede em Xangai e funcionará como uma organização internacional intergovernamental independente, voltada à promoção da cooperação científica, tecnológica e regulatória na área da inteligência artificial.
China propõe uma nova governança global para a IA
Ao anunciar a criação da WAICO, Xi Jinping reforçou a posição de que a inteligência artificial não deve ser monopolizada por um pequeno grupo de países ou empresas, mas administrada por meio de mecanismos multilaterais capazes de beneficiar toda a humanidade.
Em seu discurso na WAIC 2026, o presidente chinês afirmou que o mundo vive um momento decisivo para responder aos desafios trazidos pela rápida evolução da inteligência artificial, incluindo questões relacionadas à segurança, ética, emprego, tomada de decisões por algoritmos e redução das desigualdades tecnológicas entre países.
A proposta chinesa enfatiza uma governança baseada nos princípios da Carta das Nações Unidas, na ampla consulta entre os países, na contribuição conjunta e no benefício compartilhado.
Organização nasce em meio à disputa tecnológica global
A criação da WAICO ocorre num contexto de crescente disputa entre China e Estados Unidos pela liderança em inteligência artificial.
Nos últimos anos, Washington ampliou restrições à exportação de semicondutores avançados e de tecnologias estratégicas para empresas chinesas, alegando razões de segurança nacional. Pequim, por sua vez, vem acelerando investimentos em pesquisa, chips, modelos de linguagem e inteligência artificial aberta, ao mesmo tempo em que procura construir instituições multilaterais capazes de estabelecer normas internacionais alternativas às lideradas pelo Ocidente.
Durante sua intervenção, Xi voltou a defender que a inteligência artificial seja fruto de uma “cooperação global” e não da hegemonia de um único país, reiterando críticas às barreiras tecnológicas impostas por potências ocidentais.
Brasil integra grupo fundador
O Brasil está entre os países que participaram da construção do novo organismo internacional, reforçando sua estratégia de ampliar a cooperação tecnológica com a China e com os países do Sul Global.
Nos últimos dias, representantes de cerca de 30 países firmaram, em Xangai, um amplo acordo voltado para a cooperação ética, segura e soberana em inteligência artificial. O documento estabelece quatro grandes eixos de atuação:
- pesquisa científica;
- desenvolvimento tecnológico;
- segurança sistêmica;
- governança global da inteligência artificial.
A iniciativa permanece aberta à adesão de novos países, com o objetivo de ampliar a coordenação internacional sobre uma das tecnologias mais estratégicas do século XXI.
Sul Global busca reduzir dependência tecnológica
Um dos principais objetivos da nova organização é ampliar a participação dos países em desenvolvimento na construção das regras internacionais para a inteligência artificial.
A avaliação compartilhada por diversos integrantes da iniciativa é que o atual cenário tecnológico concentra excessivamente capacidades computacionais, infraestrutura, dados e modelos avançados em poucas empresas e países.
Nesse contexto, a China procura posicionar a WAICO como uma plataforma voltada para reduzir o chamado “abismo tecnológico” entre economias desenvolvidas e emergentes, oferecendo mecanismos de cooperação científica, capacitação e compartilhamento de tecnologias.
Durante a conferência, Xi também anunciou programas de treinamento em inteligência artificial para milhares de profissionais de países em desenvolvimento e novas iniciativas de cooperação com blocos como BRICS, ASEAN e União Africana.
Xangai consolida papel de capital mundial da IA
A Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), realizada entre os dias 17 e 20 de julho, reúne chefes de Estado, pesquisadores, executivos das principais empresas do setor e representantes de organismos internacionais.
Considerada um dos mais importantes encontros globais sobre inteligência artificial, a edição deste ano ganha relevância histórica por marcar o nascimento de uma nova instituição internacional dedicada exclusivamente à governança da IA.
Mais de mil empresas participam do evento, onde são apresentados avanços em grandes modelos de linguagem, robótica, computação avançada, semicondutores e aplicações industriais da inteligência artificial.
Um novo capítulo na governança tecnológica mundial
A criação da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial sinaliza que a disputa em torno da IA deixou de ser apenas tecnológica e passou a envolver também a construção das instituições que definirão as regras do setor nas próximas décadas.
Ao lançar uma organização multilateral própria, aberta à adesão de países de diferentes sistemas políticos e centrada na cooperação internacional, Pequim busca assumir protagonismo na formulação das normas globais para uma tecnologia considerada estratégica para a economia, a segurança nacional e o desenvolvimento científico.
Se a Organização Mundial do Comércio marcou uma etapa da globalização econômica e o Acordo de Paris tornou-se referência para a governança climática, a WAICO surge com a ambição de ocupar posição semelhante no campo da inteligência artificial, consolidando a China como um dos principais arquitetos da futura ordem tecnológica internacional.
FOTO: Brasil 247 / Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/global-times/xi-jinping-anuncia-criacao-da-organizacao-mundial-para-cooperacao-em-inteligencia-artificial/