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Trump, Bannon e a batalha pelo Brasil

Para conter o avanço chinês e reorganizar o continente sob sua influência, precisa derrotar Lula na principal disputa geopolítica do hemisfério.

Quem acompanha a política americana apenas pela cobertura cotidiana talvez não tenha percebido o significado da postagem feita por Donald Trump na última semana. Ao compartilhar um artigo da Newsmax sobre a ascensão de governos conservadores na América Latina, o presidente americano deixou explícito que o Brasil é visto como a principal disputa estratégica do continente.

A Newsmax não é um veículo qualquer. Criada em 1998 por Christopher Ruddy, tornou-se uma das principais plataformas de mídia do universo conservador americano e uma das vozes mais influentes do trumpismo. Sua linha editorial combina conservadorismo político, nacionalismo econômico e apoio consistente às agendas defendidas por Donald Trump. O artigo compartilhado pelo presidente não representa uma opinião isolada. Reflete uma visão difundida entre setores importantes da nova direita americana.

Autor do texto, John Gizzi é um dos jornalistas políticos mais conhecidos da mídia conservadora dos Estados Unidos. Colunista-chefe e correspondente da Casa Branca da Newsmax, acompanha eleições e governos há décadas. Quando escreve que a América Latina vive uma reorganização ideológica liderada por governos alinhados ao trumpismo, não fala apenas aos seus leitores. Fala para um ecossistema político conectado diretamente ao entorno do presidente americano.

Essa leitura não é nova. Em novembro de 2019, logo após a libertação de Lula, Steve Bannon afirmou à BBC que o presidente brasileiro era “o maior ídolo da esquerda globalista do mundo”. A declaração sintetizava uma convicção que Bannon mantém até hoje: Lula não é apenas um líder brasileiro, mas um dos principais símbolos internacionais do campo político que o trumpismo pretende derrotar. Não porque represente uma ameaça revolucionária, mas porque encarna a experiência política popular, nacional e independente dos centros tradicionais de poder.

O trecho dedicado por Gizzi ao Brasil merece atenção especial. O texto descreve a eleição presidencial de 2026 como o “próximo grande teste” para a consolidação de uma maioria conservadora hemisférica. Não se trata de uma disputa eleitoral comum na periferia latino-americana. Na visão desses grupos, o Brasil é o prêmio principal. Sem a antiga Ilha de Vera Cruz, a reorganização política do continente permaneceria incompleta.

A questão que deveria preocupar a diplomacia brasileira é que essa visão parece receber menos atenção em Brasília do que deveria. Há muito tempo setores do establishment americano enxergam o Brasil como espaço estratégico de disputa econômica, tecnológica e geopolítica. As controvérsias envolvendo a Lava Jato, o enfraquecimento da Petrobras, a corrida global por minerais críticos e terras raras e a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China mostram que os interesses em jogo vão muito além das diferenças ideológicas entre Lula e Bolsonaro.

O que emerge agora é algo diferente do imperialismo clássico do século 20. Não se trata apenas da projeção de poder militar ou econômico. O trumpismo procura construir uma comunidade política internacional baseada em nacionalismo, conservadorismo cultural, controle migratório e enfrentamento da esquerda. É uma tentativa de organizar parte do mundo em torno de uma mesma identidade política, tendo Washington como centro gravitacional.

Talvez seja cedo para saber se esse projeto terá êxito. Mas uma coisa já está clara. Enquanto parte do debate brasileiro continua concentrada nas disputas domésticas, a nova direita americana passou a enxergar o Brasil como peça central de uma disputa continental. E quando uma potência passa a tratar um país como troféu estratégico, ignorar o tabuleiro raramente é uma boa opção. O trumpismo está dizendo em voz alta aquilo que muitos ainda preferem não ouvir: para eles, a batalha decisiva das Américas passa pelo Brasil.

Foto: Divulgação

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/trump-bannon-e-a-batalha-pelo-brasil