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Trump mobilizou Casa Branca para ajudar Flávio Bolsonaro a fugir do Brasil, diz NYT

Governo estadunidense autorizou entrada do senador após derrota eleitoral e organizou jato particular para levá-lo aos EUA; residência permanente também está nos planos.

247 – A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos, após sua derrota na eleição presidencial brasileira, contou com a participação direta do governo de Donald Trump, que autorizou sua entrada no país e mobilizou um integrante da Casa Branca para organizar o transporte do senador em um avião particular. A operação ocorreu depois que autoridades brasileiras determinaram a entrega dos passaportes do parlamentar, investigado em diferentes procedimentos criminais.

Segundo o jornal estadunidense The New York Times, a informação foi confirmada por autoridades dos Estados Unidos e pessoas familiarizadas com os preparativos da viagem. Trump também determinou que Flávio e seus familiares recebessem autorização temporária para permanecer em território estadunidense. O governo também pretende facilitar a concessão de residência permanente ao senador.

O parlamentar chegou à região de Miami na quarta-feira (28), acompanhado da mulher e das duas filhas. A família desembarcou em um aeroporto privado após uma viagem que incluiu passagem pela Argentina e uma escala para reabastecimento em Guayaquil, no Equador.

De acordo com a reportagem, o avião utilizado na operação foi providenciado por Jason Miller, funcionário da área de comunicação da Casa Branca e aliado da família Bolsonaro. O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, manteve contato com Miller durante os preparativos.

A organização da viagem começou na segunda-feira (26), depois que Flávio Bolsonaro foi informado de que deveria entregar seus passaportes às autoridades brasileiras. Na terça-feira, diante do descumprimento da determinação, os documentos foram cancelados e um alerta foi encaminhado aos órgãos de imigração para impedir sua saída do Brasil.

Trump autorizou entrada e governo prepara residência permanente

Ao chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro e seus familiares receberam uma autorização migratória temporária conhecida como “parole”, mecanismo que permite a entrada e a permanência provisória de estrangeiros em determinadas circunstâncias.

Segundo as autoridades americanas ouvidas pelo New York Times, a autorização foi concedida por determinação de Trump. O procedimento pode ser utilizado por razões humanitárias urgentes ou quando o governo identifica um benefício público significativo.

A expectativa, de acordo com um funcionário americano, é que Flávio solicite posteriormente o green card, documento que concede residência permanente nos Estados Unidos. O processo deverá receber tratamento acelerado, semelhante ao concedido a Eduardo Bolsonaro.

Eduardo, que vive no Texas e mantém relações próximas com integrantes do governo Trump, recebeu residência permanente em julho. Conforme a reportagem, sua solicitação foi aprovada em prazo reduzido, embora procedimentos semelhantes normalmente levem anos.

Questionado sobre a entrada do parlamentar brasileiro em território estadunidense e o envolvimento presidencial, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos informou que “Flávio Bolsonaro e sua família foram recebidos e inspecionados pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, de acordo com as leis e procedimentos de imigração aplicáveis. Ao término da inspeção, o Sr. Bolsonaro e seus familiares que o acompanhavam foram liberados.”

A Casa Branca e o Departamento de Estado encaminharam ao órgão responsável pela segurança interna as perguntas sobre a situação migratória do senador.

Outro elemento identificado pelo New York Times envolve a documentação apresentada por Flávio Bolsonaro na chegada aos Estados Unidos. Um registro público do governo dos EUA sugere que o senador utilizou um passaporte diplomático brasileiro que já havia sido cancelado. O número registrado no documento corresponde, segundo informações públicas analisadas pelo jornal, ao passaporte diplomático do parlamentar.

A reportagem não esclarece como a documentação cancelada foi tratada pelas autoridades migratórias estadunidenses.

Assessor da Casa Branca organizou jato particular

A participação de Jason Miller é um dos principais elementos da operação revelada pelo jornal estadunidense.

Classificado como funcionário especial do governo dos Estados Unidos, Miller teria providenciado o avião particular utilizado para transportar Flávio Bolsonaro e sua família da Argentina até Miami, com escala no Equador.

A informação foi confirmada ao New York Times por uma pessoa familiarizada com a logística da viagem. O Wall Street Journal já havia noticiado anteriormente o envolvimento do assessor.

Miller é próximo da família Bolsonaro e relatou ter sido brevemente detido durante uma visita ao Brasil em 2021. Procurado pelo jornal, recusou-se a comentar sua participação na operação.

A Casa Branca limitou-se a remeter às declarações públicas de Trump, que não abordaram diretamente a contratação ou a disponibilização do avião.

Na quarta-feira (28), ao ser questionado sobre a chegada do senador brasileiro, o presidente dos EUA  confirmou que seu governo havia autorizado a entrada:

“Nós lhe demos um passe para entrar no país, então vamos ver. Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, isso é certo”, disse Trump.

Nesta quinta-feira, Trump evitou reconhecer quem havia vencido legitimamente a eleição brasileira. Segundo ele, sua decisão de não apoiar formalmente um dos candidatos ocorreu após um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Achei que a eleição foi um grande constrangimento para o povo brasileiro”, disse Trump pouco depois.

Flávio atravessou fronteira após cancelamento dos passaportes

A saída do senador do território brasileiro ocorreu em meio a restrições determinadas pelas autoridades em razão de investigações criminais.

Na segunda-feira (26), Flávio recebeu ordem para entregar seus passaportes em até 24 horas. A medida estava relacionada à apuração de seus vínculos com um advogado brasileiro acusado de participar de um esquema de lavagem de dinheiro superior a US$ 1 bilhão, envolvendo apostas pela internet.

O parlamentar também é investigado separadamente por valores milionários arrecadados para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). Os recursos teriam sido obtidos junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, envolvido em um grande escândalo de corrupção.

Flávio Bolsonaro não havia sido formalmente denunciado criminalmente, mas poderia enfrentar processos relacionados às investigações depois de perder sua imunidade parlamentar, prevista para terminar no início de 2027.

Apesar da determinação para entregar os documentos, o senador deixou o Brasil na noite de terça-feira (27).

Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, Flávio atravessou a fronteira acompanhado da mulher e das duas filhas às 22h50, utilizando uma van que passou pela Ponte da Fraternidade, ligação entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Puerto Iguazú, na Argentina.

Cerca de 40 minutos depois, o grupo embarcou em uma aeronave da Baires Fly, empresa privada que já realizou transportes para o presidente argentino Javier Milei.

O avião seguiu para Guayaquil, no Equador, onde foi reabastecido, antes de continuar para os Estados Unidos.

A Polícia Federal brasileira informou não possuir registro oficial da saída de Flávio Bolsonaro do país. A polícia argentina também declarou não ter registrado sua entrada, embora a autoridade migratória daquele país tenha confirmado a passagem do senador e de seus familiares pela fronteira.

Ainda não está esclarecido como Flávio Bolsonaro conseguiu deixar o Brasil apesar do cancelamento de seus documentos e do alerta emitido às autoridades migratórias.

A Polícia Federal ressaltou que as restrições impostas ao parlamentar não significavam necessariamente que ele fosse considerado foragido ou que existisse autorização automática para prendê-lo. A instituição informou que está “investigando as circunstâncias do descumprimento das ordens judiciais pelo senador”.

Após chegar aos EUA, Flávio questionou resultado eleitoral

A viagem ocorreu poucos dias depois da derrota de Flávio Bolsonaro para Lula na eleição presidencial de domingo (25). Após a derrota, o senador passou a questionar a validade da votação, utilizando como argumento uma alteração no horário de encerramento do pleito.

Segundo as autoridades eleitorais brasileiras, a mudança afetou apenas 0,03% dos votos e não teve capacidade de modificar o resultado, considerando a vantagem de 4,4 milhões de votos obtida por Lula.

Observadores internacionais independentes atestaram a integridade da eleição, e dezenas de países reconheceram o resultado. Estados Unidos e Argentina, porém, não estavam entre os governos que haviam formalizado esse reconhecimento até a publicação da reportagem.

Na quarta-feira, já em território dos EUA, Flávio Bolsonaro divulgou uma extensa manifestação nas redes sociais, na qual afirmou ter deixado o Brasil por sofrer perseguição política.

O senador agradeceu a Trump e a Javier Milei e se apresentou inicialmente como “presidente eleito legítimo” do Brasil. Posteriormente, apagou a publicação e divulgou uma nova versão, substituindo a referência à Presidência pela palavra “líder”.

“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como líder do Brasil”, afirmou na nota.

Na manifestação, Flávio Bolsonaro voltou a alegar, sem apresentar provas confiáveis, que a eleição havia sido fraudada e que era alvo de uma “caça às bruxas” conduzida pelo Judiciário brasileiro.

Ele também acusou Lula de utilizar recursos públicos de maneira indevida para favorecer sua campanha, mencionando o reajuste de um benefício social na reta final da disputa. O governo brasileiro sustenta que o aumento correspondeu a uma correção inflacionária que estava atrasada.

Apoio dos EUA pode ampliar tensão diplomática com o Brasil

A participação de integrantes da Casa Branca na saída de Flávio Bolsonaro acrescenta um novo elemento às relações entre os governos brasileiro e americano.

Lula já havia acusado Trump de interferir em assuntos internos do Brasil. Agora, a autorização especial de entrada e o envolvimento de um funcionário da Presidência americana no transporte do senador ocorrem em um contexto de investigações conduzidas pelas autoridades brasileiras.

O New York Times também destacou que o Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, adotou medidas relacionadas ao Brasil ao longo de 2026 após pressões exercidas por Flávio e Eduardo Bolsonaro.

Os dois são filhos do ex-mandatário Jair Bolsonaro, que cumpre uma longa pena em regime domiciliar por sua participação em uma tentativa de golpe de Estado.

FOTO: Reprodução/X/@FlavioBolsonaro

FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/trump-mobilizou-casa-branca-para-ajudar-flavio-bolsonaro-a-fugir-do-brasil-diz-nyt/