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A turbina a etanol de São José dos Campos e um outro caminho da transição energética

O presidente Lula visita o Instituto de Aeronáutica e Espaço, dentro do DCTA em São José dos Campos, para conhecer a UGEE1000BR — a primeira unidade brasileira de geração de energia elétrica com turbina a gás 100% nacional movida a etanol hidratado. À primeira vista, é uma notícia técnica, quase uma curiosidade de engenharia. Olhando com mais cuidado, é um caso de estudo sobre o que significa, na prática, subir na escada da complexidade econômica.

Não é sobre etanol. É sobre quem projeta a turbina.

Turbinas movidas a etanol já existem. Há até uma usina em Minas Gerais, inaugurada em 2010, que opera nesse princípio — mas com tecnologia estrangeira. O que muda agora não é o combustível: é que, pela primeira vez, todo o ciclo de engenharia da turbina — projeto, câmara de combustão, sistemas de controle, integração — foi desenvolvido no Brasil, dentro do próprio ecossistema aeronáutico que já produz o Embraer E195-E2 e os caças Gripen montados em parceria com a Saab.

Essa distinção é exatamente o que a literatura de complexidade econômica (Hidalgo e Hausmann) chama de diferença entre exportar uma commodity e dominar o “know-how” incorporado no produto. O Brasil sempre soube produzir etanol. O que faltava era a capacidade produtiva adjacente — no sentido do product space — de transformar esse insumo em uma máquina de alto valor agregado, com curva de aprendizado própria, patentes próprias, cadeia de fornecedores próprios.

A vantagem de nascer perto da fuselagem

Não é acaso que o projeto saia do eixo IAE-DCTA-São José dos Campos. A teoria de complexidade prevê que um país (ou uma região) só consegue dar o próximo salto tecnológico para produtos situados a uma “distância” produtiva pequena das capacidades que já possui. São José dos Campos já acumula décadas de conhecimento tácito em turbinas, ligas metálicas, câmaras de combustão e sistemas de controle — todos originalmente destinados à aviação. A UGEE1000BR é, em essência, um produto “vizinho” no espaço de produtos brasileiro: usa músculos que a indústria aeroespacial nacional já havia desenvolvido, agora redirecionados para geração distribuída de energia.

Isso é o oposto da estratégia de comprar tecnologia pronta lá fora. É also o oposto de ficar restrito à exportação de commodities de baixa complexidade — o eterno risco de “doença holandesa” que ronda economias abundantes em recursos naturais, tema que tenho revisitado com frequência aqui no blog.

Por que isso importa além do simbolismo

A turbina, ainda em fase de testes, mira aplicações que combinam bem com as vulnerabilidades estruturais brasileiras: comunidades isoladas na Amazônia, hospitais de campanha, operações militares, sistemas de emergência em regiões sem rede elétrica confiável. É um nicho que nem solar nem eólica resolvem sozinhos, porque a turbina gera energia sob demanda, a qualquer hora, bastando haver combustível — e o etanol, ao contrário do diesel importado, o Brasil tem de sobra e produz internamente.

Do ponto de vista de política industrial, há aqui um recado que vale mais do que o produto em si: parcerias entre um instituto de pesquisa público (IAE/DCTA), financiamento estatal (Finep, MCTI) e empresas privadas (Aero Concepts, FW Soluções, GA General Automation) produzindo, juntos, um ativo de propriedade intelectual nacional. É a lógica do Estado empreendedor de Mariana Mazzucato aplicada a um setor em que o Brasil já tinha, por acaso da história industrial dos anos 1940 e 1950, uma vantagem comparativa latente — a aeronáutica em São José dos Campos.

Uma ressalva necessária

Vale a cautela: a UGEE1000BR ainda é um demonstrador tecnológico, entregue no início de julho e sujeito a uma bateria de ensaios de potência, consumo, emissões, durabilidade e segurança. Não há cronograma de produção em escala nem custos divulgados. Entre o protótipo e a commodity industrial de fato — vendida, exportada, replicada — existe uma distância que a história da inovação brasileira conhece bem, e que nem sempre se percorre com sucesso.

Mas o caminho escolhido é o correto: partir de uma capacidade real já instalada, buscar produtos próximos no espaço de complexidade, e usar o Estado como articulador — não como substituto — da iniciativa privada. Se a turbina sair do laboratório, São José dos Campos terá dado, silenciosamente, mais um passo na direção que separa países que exportam matéria-prima daqueles que exportam engenharia.

FONTE: https://www.paulogala.com.br/a-turbina-a-etanol-de-sao-jose-dos-campos-e-um-outro-caminho-da-transicao-energetica/