Jornal descreve Lula como “um dos poucos líderes a confrontar Trump” e diz que o presidente “deixou claro que está preparado para defender os interesses do seu país”.
247 – O Brasil está erguendo uma “barreira” de proteção para tentar resguardar a votação do próximo domingo (4) contra uma possível interferência dos Estados Unidos, em um pleito classificado como o maior teste para a direita na América Latina e para o histórico recente de sucesso da influência de Donald Trump na região, avalia reportagem do jornal norte-americano New York Times.
De acordo com o diário nova-iorquino, desde que assumiu o cargo na Casa Branca, Trump se tornou um “fiel articulador eleitoral”, de maneira que candidatos de direita alinhados a Washington venceram as últimas sete disputas regionais — com o republicano endossando explicitamente o vencedor em duas delas. Diante da preparação dos brasileiros para ir às urnas, a questão central que paira no ar é qual será o próximo movimento do chefe do Executivo norte-americano.
“O líder americano não declarou abertamente apoio a nenhum candidato brasileiro. Mas o governo Trump, de forma mais sutil, impulsionou o candidato de direita Flávio Bolsonaro, que concorre contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda. Tendo observado o Sr. Trump interferir em outras eleições e vivenciado sua tentativa fracassada de ajudar o pai do Sr. Bolsonaro a evitar a prisão por conspiração para um golpe de Estado, o Brasil está erguendo uma barreira para tentar proteger sua votação crucial de uma possível interferência dos EUA”, escreveu a publicação internacional.
Com base em entrevistas com mais de uma dezena de servidores e funcionários do sistema eleitoral, além de policiais, agentes de inteligência e diplomatas, a reportagem apurou que a movimentação preventiva do governo brasileiro inclui o monitoramento ostensivo do grupos de pressão estrangeiros e da desinformação, o combate a alegações falsas sobre fraude eleitoral e a busca do apoio diplomático de nações da Europa, da Ásia e de outras regiões.
A apreensão central de autoridades brasileiras é que, em uma disputa tão acirrada pela Presidência da República, uma ajuda vinda de Trump possa pender a balança em favor do senador Flávio Bolsonaro. Integrantes do governo brasileiro apontaram que essa ajuda externa poderia vir acompanhada de “outras medidas” para prejudicar a imagem de Lula, após o anúncio de sanções contra ministros e magistrados brasileiros sob o pretexto de defesa de condenados pela trama golpista, além da imposição de sobretaxas contra produtos nacionais.
A influência por meio de redes digitais também acendeu alertas nas autoridades brasileiras. “Muitos também se preocupam com campanhas online vindas do exterior que podem estar ajudando o Sr. Bolsonaro. Uma recente onda de publicações pagas nas redes sociais, compartilhadas por contas proeminentes da direita americana, intensificou esses temores”, destacou o periódico norte-americano, exemplificando com publicações que apontaram a alta de Flávio Bolsonaro nos mercados de apostas, como o Polymarket.
O jornal descreveu o presidente Lula (PT) como “um dos poucos líderes mundiais a confrontar Trump” e assinalou que o chefe de Estado “deixou claro que está preparado para defender os interesses do seu país”. O texto destacou o discurso pronunciado pelo presidente contra a ingerência externa nas eleições durante a abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, além do bloqueio feito pelo governo do Brasil à visita de emissários dos Estados Unidos que pretendiam acompanhar o sistema eleitoral do país.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro reforçaria os planos ambiciosos de Washington para expandir sua influência na América Latina por meio de aliados de direita, cenário no qual o Brasil representa “o maior prêmio restante”. Conforme a avaliação do New York Times, sob uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro, o Brasil provavelmente se alinharia de maneira mais direta com os Estados Unidos em tópicos estratégicos como o combate ao crime organizado e a exploração de minerais críticos — pautas que Lula rechaçou entregar sem contrapartidas e que, conforme documentos vazados escritos por um aliado bolsonarista, indicaram ser uma suposta moeda de troca por apoio político.
O periódico lembrou ainda o precedente das últimas eleições presidenciais, quando o então presidente norte-americano Joe Biden reconheceu a vitória de Lula logo após a divulgação do resultado das urnas em 2022. O gesto diplomático, contudo, não impediu que apoiadores bolsonaristas invadissem os prédios dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, nem deteve o andamento do processo judicial da trama golpista, que resultou na condenação de Jair Bolsonaro (PL) e de outros envolvidos — diferentemente dos apoiadores de Trump na invasão do Capitólio em 2021.
Diante do iminente dia de votação, o jornal ressaltou a apreensão quanto ao comportamento da oposição em caso de derrota. “Caso seu filho, Flávio, perca, há indícios de que o candidato poderá lançar acusações semelhantes de fraude eleitoral — e seus aliados esperam encontrar apoio em Trump”, sublinhou o New York Times.
FOTO: Reprodução/X/@FlavioBolsonaro | Ricardo Stuckert/PR
FONTE: https://www.brasil247.com/mundo/brasil-ergue-barreira-para-evitar-interferencia-dos-eua-nas-eleicoes-aponta-o-new-york-times/