As eleições presidenciais de outubro próximo no Brasil (hoje no olho do furacão) são um assunto interno do país e só aos brasileiros e brasileiras compete decidir quem será o próximo presidente.
Há quarenta anos, o Brasil derrubou uma das três mais longas e sanguinárias ditaduras militares dos últimos cem anos na América do Sul. As outras duas foram a chilena e a argentina. A transição democrática foi pactuada com os ditadores, uma marca de fraqueza que persegue até hoje a democracia brasileira. Além disso, a redemocratização ocorreu em um contexto internacional de imposição global do neoliberalismo, uma arma de destruição massiva da justiça social e da democratização da sociedade e do Estado. Mas, graças aos movimentos sociais e a um sindicalismo vibrante (em que se destacou o atual presidente Lula da Silva), o Brasil soube fazer da fraqueza, força. A democracia consolidou-se e aprofundou-se com as experiências locais de democracia participativa (o orçamento participativo) que chamaram a atenção do mundo democrático. Em 2001, o Brasil tornou-se o espelho mundial da força dos movimentos sociais na busca por justiça social ao organizar o primeiro Fórum Social Mundial e, em 2002, elegia presidente o aguerrido sindicalista Lula da Silva, vindo dos confins empobrecidos do Nordeste do país, nos antípodas das elites de São Paulo que sempre governaram o Brasil.
Seguiu-se uma década gloriosa de desenvolvimento econômico, melhorias das condições de vida das classes populares (que finalmente puderam andar de avião para visitar familiares ou gozar férias, para incômodo das classes habituadas a esse privilégio de mobilidade), investimento transformador na educação pública, sobretudo universitária (outro incômodo para as classes privilegiadas que até então estavam convencidas de que não havia um racismo estrutural na sociedade brasileira e de que, por isso, não eram necessárias políticas compensatórias, ações afirmativas, sistemas de cotas). O Brasil tornou-se um dos países emergentes no Sul Global, entre as dez maiores economias do mundo e, em 2006, constituiu-se formalmente como membro fundador do BRIC, precursor do BRICS. Em suma, uma potência mundial que, além disso, parecia demonstrar que não há contradição entre desenvolvimento capitalista e desenvolvimento democrático.
Mas, tragicamente, as aparências enganam. A crise financeira de 2008 e as mudanças que se seguiram (o capital financeiro responsável pela crise foi quem ficou encarregado de resolvê-la com as consequências habituais: quem paga a crise são os de baixo, sejam eles as classes sociais ou os países), combinadas com a necessidade de os EUA voltarem a cuidar do seu quintal latino-americano depois do desastre no Iraque e alarmados com a crescente influência da China no subcontinente, desestabilizaram o capitalismo brasileiro e a democracia brasileira principalmente por meio da Operação Lava Jato. Afinal, a força também era fraqueza. Ao golpe brando de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff seguiu-se a fabricação da inabilitação do mais forte candidato às eleições de 2018, Lula da Silva, a sua prisão por 580 dias e a eleição de um obscuro e medíocre radical de extrema-direita.
Mas a força da democracia não estava toda esgotada. Desta vez, da fraqueza se fez a força. Perante a pressão da denúncia dos atropelos legais por parte dos brasileiros e dos democratas do mundo, o mesmo sistema judicial que fabricara a inabilitação de Lula da Silva e a sua prisão resgatou-se, de um ponto de vista democrático, repondo a legalidade e permitindo que Lula da Silva voltasse a disputar e a vencer as eleições presidenciais, o que ocorreu em 2022.
O presidente Lula da Silva voltou, mas não voltou a pujança democrática do Brasil e a riqueza e a diversidade dos movimentos sociais. Nem sequer voltou a alegria afro-católica-pagã da rebeldia que desarma a ortodoxia bem-pensante, dá esperança na luta em condições de maior adversidade e se disfarça de reverência à flor da pele para esconder melhor os dentes cerrados do inconformismo. Os resistentes rappers continuaram a revoltar-se, mas cada vez mais sozinhos.
É que, entretanto, a sociedade brasileira sofrera uma recolonização de tipo novo assente em dois extrativismos: o extrativismo da crença e o extrativismo da deliberação. Como no domínio de outras matérias-primas, o extrativismo é a troca desigual, a expropriação, a violência física, psíquica ou simbólica para extrair recursos naturais ou humanos. A novidade desta recolonização é que ela se apresenta como descolonização exaltante em relação ao velho mundo da velha religião e da velha política. É uma expropriação que se disfarça de reapropriação, uma servidão que se disfarça de autonomia, uma superobjetivação das consciências que se disfarça de exaltante supersubjetivação. Em suma, despossessão como nova forma de empoderamento.
A intensidade da recolonização entretanto realizada ficou manifesta no modo como a extrema-direita reagiu aos resultados eleitorais. Não tendo conseguido apropriar-se pacificamente das eleições, reagiu violentamente, vandalizando os edifícios da Praça dos Três Poderes de Brasília, brilhantemente desenhada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer para celebrar a democracia. Em 8 de janeiro de 2023, o mundo assistiu pasmado e incrédulo às imagens chocantes de vandalismo no coração das instituições do poder político. A força da democracia brasileira revelava que tinha os pés de barro.
Mas, de novo, e desta vez à beira do abismo, a democracia brasileira reuniu os estilhaços e recompôs-se. Mais uma vez da fraqueza se fez força, mas a força já não era a força do período anterior. Não era a força do florescimento, era a força da sobrevivência porque, entretanto, as operações de extrativismo tinham avançado muito.
O extrativismo da crença
Para não haver equívocos, começo por reiterar todo o meu respeito pelos sentimentos e crenças religiosas das pessoas, afirmando, ao mesmo tempo, que sou totalmente contra qualquer uso político da religião que não seja o de seguir a prática do Nazareno: lutar neste mundo pelo bem-estar e dignidade das classes populares, empobrecidas, excluídas, vítimas de discriminação racial e sexual, contra os vendilhões do templo, fabricantes da desigualdade e da discriminação, e correr os riscos que isso envolve nas sociedades capitalistas, colonialistas e patriarcais em que vivemos.
O extrativismo da crença suga as energias religiosas dos degradados da terra para criticar e transformar este mundo injusto e transfere-as para o zelo em garantir que a justiça da melhoria de vida seja salvaguardada no outro mundo, o mundo da salvação eterna. Os transportadores dessas energias são os pastores, sobretudo os evangélicos da denominação neopentecostal, que, com a proliferação das suas igrejas e os milhões de seguidores nas redes sociais e nos seus vídeos diários, garantem o melhor rendimento dessas energias no outro mundo.
A energia anímica gasta em transes dentro das igrejas não sai à rua. Pelo contrário, o crente sai à rua relaxado, conformado com este mundo e contente com a prosperidade que está a acumular no outro mundo. Que os transportadores sejam cada vez mais prósperos neste mundo é a justa recompensa para o esforço de transportar para tão longe as energias do rebanho. O inconformismo do crente passa a ter um radar estreito: mudar a família e convencer os vizinhos.
O extrativismo da deliberação
Este extrativismo consiste em viciar as pessoas em subcontratar a agenciadores acreditados e facilmente disponíveis o pensamento, a informação e as emoções necessárias para deliberar. Fica, assim, o tempo livre para procurar trabalho, ajudar a alimentar a família e distrair-se com a televisão, as redes sociais e o futebol e, até há pouco, o carnaval (o extrativismo da crença está a eliminar o carnaval).
O extrativismo da deliberação é particularmente intenso quando articulado com o extrativismo da crença. É que, se a política é importante para gerir este mundo, quem o gere melhor é quem mais se assemelhar Àquele que gere o Outro Mundo, o mundo da salvação eterna. Ora, se Deus não é democrático, por que tem de o ser quem gere este mundo? O importante é que seja um dos nossos, isto é, da confiança dos nossos agenciadores da energia deliberativa e dos nossos transportadores da energia religiosa para um lugar seguro no mundo da salvação. Amanhã, se os agenciadores e transportadores assim o quiserem, pode ser a inteligência artificial a escolher candidatos em quem votar e a deles fazer governantes. Se garantir que o eleito é dos nossos, o crente viciado dorme descansado por ter cumprido o seu dever e ter ganho alguns pontos na vida eterna.
O extrativismo decorre da transferência massiva da deliberação democrática individual para agenciadores de opinião e de energia deliberativa. O mundo das incertezas entre candidatos a eleições e do medo de escolher errado e de sofrer as consequências é deixado à porta das igrejas e das telas. O que se ganha em seguir a opinião dos nossos e na companhia de milhões iguais a nós vale muito mais do que a deliberação individual e o voto solitário que, aliás, de pouco vale porque os políticos, salvo os nossos, são todos iguais e nunca cumprem o que prometem nas campanhas eleitorais.
Como Claude Lévi-Strauss nos ensinou, os mitos são os grandes estabilizadores das hierarquias. Assim se consolida o mito antidemocrático. A novidade é que o efeito combinado dos dois mitos de hoje estabiliza a hierarquia, não só entre este mundo-vale-de-lágrimas e o outro mundo da felicidade eterna, mas também dentro de cada um deles.
Estabilizar as hierarquias numa sociedade social, racial e sexualmente injusta significa congelar o conformismo. Não se trata do conformismo passivo da resignação e da abstenção, trata-se antes do conformismo militante, intolerante para com quem o põe em causa. E quem o põe em causa é o diabo ou o comunista, seja ele um candidato que não é nosso, as opiniões que discordam das nossas, isto é, dos agenciadores do nosso pensamento, das nossas preferências e das nossas energias deliberativas. Com o diabo e com o comunista não se pactua nem se discute. O diabo e o comunista combatem-se e todas as armas são legítimas se forem eficazes.
A origem destes extrativismos
Os superagenciadores e supertransportadores destes extrativismos têm uma origem bem conhecida: os EUA. Vêm de longe, do imperialismo norte-americano no subcontinente desde a Doutrina Monroe de 1823, segundo a qual o subcontinente é uma zona de influência dos EUA que ninguém pode pôr em causa, seja a Europa, nos séculos XIX e XX, seja a China, no século XXI. Mais recentemente, estes dois extrativismos intensificaram-se em dois momentos diferentes, mas convergentes.
Perante o fracasso da Aliança para o Progresso para conter a Revolução Cubana, Nelson Rockefeller propôs ao presidente Richard Nixon, no seu Relatório sobre a América Latina de 1969, que a solução residia em exportar em massa para o subcontinente as teologias mais conservadoras do protestantismo (sobretudo o evangelismo neopentecostal) que respondessem eficazmente ao perigo da deriva comunista do subcontinente, cujo principal agente era a teologia da libertação dos padres e bispos católicos energizados pelo Concílio Vaticano II. Eram eles, e não os políticos laicos, comunistas ou esquerdistas antirreligiosos, quem convivia em direto e no terreno com os pobres, a miséria, o descontentamento e a revolta do subcontinente contra o status quo, prometendo a redenção neste mundo e não no outro.
A partir daí, uma avalanche de pastores protestantes desabou sobre o continente. Fui testemunha direta disso quando, em Cuernavaca, México, os observei entre 1970 e 1973 a aprender vorazmente o castelhano para rumar ao sul. Para os que tinham de aprender o português, havia outros entrepostos linguísticos. Talvez a maioria não soubesse do grande desígnio imperial que estava a cumprir. Queria apenas a salvação das almas e a disseminação da sua denominação religiosa. Muitos dos pastores nem seriam conservadores. Mas o projeto era imperial e funcionou plenamente.
As Igrejas protestantes, sobretudo evangélicas, estão espalhadas por todo o continente e não têm qualquer pudor em transformar o seu proselitismo religioso em proselitismo político a favor de candidatos nossos, isto é, daqueles e daquelas que sirvam os interesses da classe dominante e do imperialismo norte-americano, não por serem virtuosos em si mesmos, mas porque são eles que defendem a nossa família, os nossos valores tradicionais e afastam com eficácia o Satanás da esquerda, toda ela comunista, a encarnação do Diabo. As duas dimensões do extrativismo têm uma característica preciosa: poupam ao cidadão e à cidadã o tempo de ouvir o comunista e o tempo de resistir à tentação do Diabo.
Foi esta a origem da dimensão religiosa do extrativismo (o extrativismo da crença). A dimensão secular do extrativismo (o extrativismo da deliberação) intensificou-se mais recentemente com a chegada ao poder nos EUA de Donald Trump e o seu propósito de recolonizar a América Latina como o meio mais eficaz de recuperar o tempo perdido e de impedir definitivamente a China de entrar ou permanecer no seu quintal. Os agenciadores do extrativismo da deliberação são as plataformas digitais, as redes sociais, os comunicadores, os influenciadores e, sobretudo, os fabricantes de fake news. Os dois extrativismos não só se tornaram mais violentos, como adquiriram uma capacidade de disseminação de tipo viral. De fato, os dois extrativismos converteram-se em dois vírus, dois vírus disfarçados de vacinas contra o Diabo e o comunismo.
Os dissolventes da democracia
Os dois extrativismos foram pensados para atuar em regimes democráticos, desfigurando a democracia, dissolvendo o seu potencial de exercício da soberania popular até esta se transformar em vassalagem orgulhosa aos interesses e desígnios geopolíticos do imperialismo norte-americano, paradoxalmente justificada em nome dos superiores interesses da pátria. Historicamente, correspondem à terceira grande estratégia de intervencionismo. Cada uma delas usa um instrumento privilegiado de intervenção. Mas uma vez utilizado, nenhum instrumento é totalmente descartado. Fica de reserva para ser acionado no caso de os novos instrumentos não funcionarem.
A primeira estratégia
A primeira grande estratégia foi a imposição de ditaduras civis ou militares. Nesta fase, o instrumento local privilegiado para concretizar a intervenção foram as Forças Armadas do país a intervir. Para isso, foram treinadas na Escola das Américas, sediada nos EUA e especializada em ensinar técnicas de tortura, extorsão, chantagem e execuções sumárias. Por esta razão, ficou conhecida como Escola de Assassinos ou Escola de Ditadores. Calcula-se que mais de 60.000 militares latino-americanos foram aí treinados. No que respeita ao Brasil, a Comissão Nacional da Verdade afirma no relatório final que mais de 300 militares brasileiros foram treinados na Escola das Américas entre 1954 e 1996.
A segunda estratégia
Ante o fracasso desta estratégia, dada a resistência dos latino-americanos contra as ditaduras e o regresso das democracias, a segunda estratégia consistiu nos golpes brandos, a manipulação das instituições democráticas para favorecer a eleição de candidatos servis aos interesses do imperialismo. O instrumento local privilegiado foi o sistema judicial. Sobretudo a partir da década de 1990, centenas de procuradores do Ministério Público e juízes (alguns deles já conhecidos pelas suas posições conservadoras) foram convidados para cursos de especialização nos EUA ou nas embaixadas norte-americanas nos seus países ao abrigo de programas de formação, intercâmbio e cooperação internacional, onde, sob o pretexto da formação, lhes foi inoculada a ideologia anticomunista, antissocialista, antiesquerda, antissocial-democrática, cujos pilares principais são os seguintes: uma concepção inquisitorial do Ministério Público (na tradição norte-americana) a partir do privilégio dado a políticas de segurança institucional e de investigação criminal, a defesa da propriedade privada e da liberdade de expressão sem limites de respeito pela dignidade ou pela verdade, a luta contra a corrupção e o terrorismo, subentendendo-se que esses males estão mais disseminados entre os políticos considerados progressistas.
A terceira estratégia
Como os casos do Brasil, do Chile e da Colômbia bem demonstram, esta segunda estratégia nem sempre tem funcionado eficazmente. Em face disso, tem vindo a ser privilegiada uma terceira estratégia, a manipulação das consciências e das subjetividades através do extrativismo da crença e do extrativismo da deliberação que tenho estado a analisar. Nesta estratégia, o instrumento local de intervenção são os pastores (sobretudo evangélicos), os meios de comunicação corporativos e os jornalistas, comunicadores e influenciadores considerados de direita e de extrema-direita que, tal como os magistrados anteriormente, são convidados para cursos de formação, fins de semana de retiro ou de reflexão nos seus próprios países, e visitas ou estadias nos EUA.
A doutrinação religiosa é dominada pela teologia da prosperidade, ou seja, pela celebração da riqueza como bênção de Deus. A importância desta celebração é que, através dela, a riqueza e a pobreza deixam de estar relacionadas por lógica de causalidade. O enriquecimento das minorias deixa de estar relacionado com o empobrecimento das grandes maiorias. Se obedientes aos ensinamentos dos pastores, os pobres deste mundo serão os ricos do outro mundo.
A doutrinação secular é abertamente reacionária no sentido técnico da palavra. Alta tecnologia de extrativismo da deliberação é posta ao serviço de ideias do Ancien Régime, isto é, das ideias políticas que dominaram antes do liberalismo individualista do século XVII e das revoluções burguesas do século XVIII (a revolução norte-americana e a revolução francesa) e, no século XIX, a onda revolucionária na Europa pós-1848: domínio do poder da Igreja sobre as consciências e do poder absoluto do Rei sobre a vida profana. A diferença crucial em relação ao período do pré-Iluminismo é que da ideologia reacionária de hoje faz parte a defesa incondicional da propriedade privada, algo que era absurdo nos séculos XVII e XVIII pré-revolucionários.
A articulação entre as estratégias
A sequência entre as três estratégias não é linear. Tem sido um processo cumulativo de instrumentos de ingerência em que apenas são visíveis tendências e ênfases. É possível que, num dado momento, as três estratégias estejam a ser adotadas em diferentes países ou até no mesmo país como uma caixa de ferramentas antidemocráticas a serem usadas segundo as circunstâncias concretas.
A intervenção difere consoante (1) visa preparar com tempo uma mudança política por via eleitoral, (2) tem lugar durante um processo eleitoral, ou, finalmente, (3) tem lugar fora de um processo eleitoral. No caso (2), a intervenção visa condicionar ao máximo as intenções de voto dos eleitores, pelo que a defraudação das eleições ocorre antes da votação e, por isso, não reside na contagem de votos. Inclui, por vezes, acusações de fraude eleitoral contra o inimigo com o objetivo de deslegitimar os resultados eleitorais e preparar outras estratégias mais violentas e frontalmente golpistas, como aconteceu no Brasil em 8 de janeiro de 2023.
O que é importante salientar é que a ingerência dos EUA nos países da América Latina tem vindo a intensificar-se e a diversificar os seus instrumentos. No último ano, podemos mencionar três casos paradigmáticos.
Nas Honduras, a interferência dos EUA nas eleições de novembro de 2025 combinou a segunda estratégia com a terceira. Perante o provável fracasso desta última, recorreu-se a uma forma de golpe brando, típico da segunda estratégia. Donald Trump interveio pessoalmente. Manifestando publicamente o seu apoio ao candidato de extrema-direita, Nasry Asfura, acusou o Conselho Nacional Eleitoral de fraude na contagem dos votos e ameaçou o país com sanções econômicas caso vencesse o outro candidato, também de direita, mas mais moderado. A ingerência foi tão grosseira que a presidente cessante, Xiomara Castro, acusou Donald Trump de ter orquestrado um golpe eleitoral por meio de chantagens, coação e ingerência direta na soberania do país.
Na Venezuela, os EUA recorreram a uma combinação entre a primeira e a segunda estratégia: um golpe de Estado puro e duro com a aparência de golpe brando dentro da normalidade democrática, porque consentido pelas autoridades legitimamente eleitas. Depois de terem cometido crimes de guerra, matando cerca de duzentos pescadores no mar das Caraíbas, os EUA invadiram militarmente a Venezuela a 3 de janeiro deste ano, numa operação cujo nome é esclarecedor dos seus propósitos, Operação Resolução Absoluta. Mataram mais de vinte militares da guarda presidencial, na maioria cubanos, capturaram o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama enquanto dormiam e levaram-nos presos para os EUA. A líder máxima da extrema-direita, María Corina Machado, tinha pedido muitas vezes a intervenção militar dos EUA. Assim foi feito, mas não com o desfecho que ela pretendia: o poder não lhe foi entregue, deixou pateticamente desarmado o governo atual sob a presidência da vice-presidente, Delcy Rodríguez. A expropriação (roubo?) da exploração do petróleo, objetivo principal da intervenção, foi entregue ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, o novo vice-rei da Venezuela. Para além de a China ter perdido o acesso privilegiado ao petróleo da Venezuela, o rendimento do petróleo, calculado recentemente pelo Financial Times em doze bilhões de dólares, está depositado no Tesouro dos EUA e é disponibilizado discricionariamente pelo vice-rei.
Na Colômbia, a terceira estratégia foi usada com uma intensidade sem precedentes nas eleições de maio e junho deste ano. As plataformas e os agenciadores do extrativismo da deliberação utilizaram as tecnologias mais sofisticadas do universo digital com a participação ativa da tecnologia israelense para roubarem aos colombianos a autonomia de se informar e de escolher por si o candidato em quem votar. Por sua vez, o extrativismo da crença deu o golpe de misericórdia nas possibilidades de eleição do candidato de esquerda Iván Cepeda, sobretudo na semana final da campanha eleitoral. Os púlpitos, as orações, os cultos de adoração, as orações espontâneas, os vídeos e as redes sociais das igrejas evangélicas inundaram o espaço público com apelos urgentes à defesa sagrada da família ante a ameaça do diabo vermelho. Esta estratégia foi reforçada com as já habituais declarações de apoio de Donald Trump ao candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella, combinadas com alertas da Embaixada dos EUA em Bogotá sobre potenciais surtos de violência e de protesto. O resultado das eleições estava escrito na pedra diáfana das fake news.
O Brasil no olho do furacão e a importância global do desfecho
Tudo leva a crer que o Brasil será o próximo alvo de ingerência dos EUA e é provável que ultrapasse em intensidade e diversificação tudo o que já observámos até agora.
O Brasil é o maior e mais populoso país da América Latina, a economia mais importante e o mais volumoso parceiro de trocas comerciais com a China. É, além disso, um dos países fundadores dos BRICS, e a ex-presidenta Dilma Rousseff é a atual presidente do banco dos BRICS, o Novo Banco de Desenvolvimento. E é, sobretudo, uma democracia fragilizada pelo seu passado recente e o país onde o extrativismo da crença e o extrativismo da deliberação têm vindo a atuar há mais tempo e com mais intensidade. Acresce que a extrema-direita brasileira é a que está mais internacionalizada e exibe uma arrogância que intriga o mundo democrático, sobretudo em face do desastre recente do desempenho do presidente de extrema-direita durante a pandemia, do qual resultaram entre 120.000 e 400.000 mortes evitáveis, segundo os cálculos da Organização Mundial da Saúde.
O que se vai passar no Brasil nos próximos meses diz respeito aos brasileiros e brasileiras e deve ser da sua exclusiva responsabilidade, mas o que quer que se passe terá uma importância que excede em muito o Brasil.
Terá certamente importância para todo o subcontinente porque sinalizará a dimensão dos limites de ingerência dos EUA na destruição dos regimes democráticos da região. A extrema-direita usa a democracia para conquistar o poder, mas, uma vez conquistado, não o exerce nem permanece nele democraticamente. É a morte anunciada da democracia.
A importância do que se vai passar no Brasil é, no entanto, de dimensão mundial, porque as tecnologias próprias da terceira geração de ingerência estão já a ser igualmente utilizadas em África e na Europa. Convém, pois, salientar as suas características principais.
- Os dois extrativismos estão a ser usados em todo o mundo onde o imperialismo norte-americano pretende criar ou manter alguma influência.
São parte fundamental do movimento global da extrema-direita que atua nos mais diferentes países, adaptando o roteiro de base às condições locais, mas recorrendo à intervenção em última instância dos EUA sempre que julgada útil.
- Há articulações globais entre os dois extrativismos.
Os partidos de extrema-direita dos diferentes países dispõem hoje de uma vasta e diversificada articulação global (por vezes, estendendo-se aos partidos de direita mais conservadores): a Conferência de Ação Política Conservadora, nascida nos EUA e hoje com projeção mundial, as Cúpulas e Grupos do Parlamento Europeu (Patriotas pela Europa, Europa das Nações Soberanas, Conservadores e Reformistas Europeus), o Fórum Madri e a Carta de Madri.
Os temas que debatem são, sem surpresa, os seguintes: anti-imigração (defesa do fechamento de fronteiras e críticas ao multiculturalismo); soberanismo (oposição a organismos supranacionais, como a União Europeia ou a ONU); guerra cultural (discursos focados na defesa da família tradicional e oposição às agendas progressistas e de identidade de gênero); táticas digitais (partilha de metodologias sobre o uso de algoritmos, redes sociais e desinformação estruturada para captar o eleitorado jovem).
Organizações não partidárias de extrema-direita têm igualmente as suas próprias reuniões e articulações globais e os temas em debate só em parte se sobrepõem aos dos partidos de extrema-direita: coordenação de narrativas (alinhamento de discursos contra a imigração, as minorias e a ordem liberal); exportação de estratégias (adaptação local de táticas de comunicação digital e ativismo de base que funcionaram em outros países); financiamento transnacional (ligação entre doadores internacionais privados, fundações ricas e grupos de pressão política); combate cultural (foco na transformação profunda de normas sociais, instituições acadêmicas e valores culturais antes da própria conquista do poder eleitoral).
Por sua vez, as grandes conferências globais das igrejas evangélicas têm lugar regularmente, focadas na cooperação missionária, na liderança e no alinhamento teológico. Existe uma Aliança Evangélica Mundial que realizou em 2025 a sua décima quarta Assembleia Geral. Obviamente, uma parte deste movimento global não obedece a desígnios imperiais, nem subscreve ideologias de extrema-direita, embora seja anticomunista, tal como sempre foi a Igreja Católica, com exceção do breve período da teologia da libertação.
Quando o extrativismo da deliberação está presente, o extrativismo da crença tende a aliar-se com ele nos momentos decisivos, ou seja, durante as campanhas eleitorais. Tal como tem acontecido em outros países, a intervenção explicitamente política dos pastores e das suas igrejas ocorre na ponta final das campanhas, quando já nada pode ser feito para a neutralizar.
- O capital digital
Nas últimas décadas, o segmento da globalização do capitalismo liderado pelos EUA caracterizou-se pela centralidade do capital financeiro no controle das opções políticas tanto no plano interno como no plano internacional dos países periféricos e semiperiféricos (políticas de austeridade, sanções, tarifas, congelamento de ativos em dólares depositados no estrangeiro). Essa centralidade começa hoje a ser compartilhada pelo capital digital, o qual tem a característica de poder ser usado diretamente no controle das consciências, quer através do extrativismo da crença quer através do extrativismo da deliberação. Os partidos e as organizações de extrema-direita apoiam-se cada vez mais no capital digital, uma vez que este lhes permite personalizar ao máximo a doutrinação política. Quanto mais personalizada a doutrinação, mais facilmente ela se transforma em informação confiável para o receptor. Os cidadãos escolhem depois de terem sido escolhidos pelo algoritmo para serem favoráveis à escolha que efetivamente fazem por sua livre vontade. O algoritmo é o grande decisor antidemocrático do nosso tempo.
A extrema-direita liderada pelos EUA joga todas as suas cartas no uso da inteligência artificial (IA) para disseminar as suas mensagens, para moldar e condicionar as mentes e as consciências, para a converter em instrumento privilegiado de acesso e de exercício do poder tanto no plano econômico como nos planos social, político e cultural. Para os mais extremistas, como o filósofo Nick Land, a IA é o Deus do nosso tempo. É cada vez mais popular no seio da extrema-direita o Movimento do Tecno-Otimismo, totalmente centrado na hubris da IA.
- Participação de Israel
O imperialismo norte-americano é hoje uma ação conjunta dos EUA e de Israel. Sem alterações políticas profundas em qualquer destes países, nenhum deles pode sobreviver sem o outro. A importância do capital digital nos sistemas de informação, de desinformação, de vigilância, de inteligência, de segurança e de ciberguerra confere às empresas israelenses e ao Estado de Israel uma posição estratégica que muitas vezes se sobrepõe à dos EUA. As tecnologias de guerra assentes na IA têm tido no Médio Oriente, e sobretudo na Palestina, um campo de experimentação tão sofisticadamente bárbaro que supera em muito o dos campos de concentração nazistas.
- A extrema-direita como sociedade civil
Quando se fala de ingerência antidemocrática ou de imperialismo dos EUA, pode induzir-se no erro de pensar que estamos exclusivamente perante ações do Estado norte-americano. Longe disso. O movimento global de extrema-direita, apostado no extrativismo da crença e no extrativismo da deliberação, é um movimento daquilo que o liberalismo designou como sociedade civil. São igrejas, organizações não governamentais, fundações, jornais, plataformas digitais, rádios, redes sociais, fábricas de fake news, comunicadores, influenciadores, intelectuais de esquerda que funcionam como idiotas úteis para ganhar notoriedade, militantes de causas supostamente progressistas cujo objetivo principal (de que os militantes nem sempre estão conscientes) é criar uma opinião favorável ao ativismo vindo do Norte e ao imperialismo norte-americano.
- Ter poder político sem nunca ter exercido um cargo público
Uma das grandes novidades do atual modelo de ingerência antidemocrática nos processos políticos dos países na zona de influência norte-americana é o poder político exercido por figuras que nunca exerceram qualquer cargo público e que, quando não são influenciadores, são desconhecidas do público, atuando nos bastidores e, às vezes, nos subterrâneos das campanhas de desinformação a favor de candidatos de extrema-direita, gestores de fábricas multinacionais de lixo informático, graças ao domínio que têm dos algoritmos e da IA em geral. São figuras sinistras, dissolventes poderosos do espírito democrático e do respeito pela verdade e pela dignidade das pessoas. Muitas vezes complementam atividades legais com atividades ilegais: mercenários de ideias falsas e de causas fascistas, desde que pagos, atuando em vários países. São uma dimensão da globalização subterrânea do fascismo a que se tem dado pouca atenção.
Só se tornam conhecidos do grande público em condições excepcionais, como no caso recente de Fernando Cerimedo, desinformador argentino, atualmente preso na Bolívia por tentativa de homicídio de uma companheira grávida de um filho seu. E talvez nem sequer estivesse preso se não houvesse divergências entre o presidente e o vice-presidente da Bolívia.
Por quem os sinos dobram?
A frase do poeta inglês do século XVII, John Donne, tornada mundialmente famosa pelo romance de Ernest Hemingway, tem toda a pertinência neste momento histórico da vida do Brasil. Os próximos tempos serão decisivos para o futuro da democracia no Brasil. Dada a posição do Brasil na América Latina e no mundo, o que acontecer no Brasil afetará todo o mundo democrático e terá impacto decisivo na gestão das rivalidades entre a China e os EUA.
O Brasil enfrenta um ato de agressão que só tem precedentes recentes no Golpe Militar de 1964. O desafio é da dimensão do objetivo da agressão: a recolonização profunda do Brasil de modo que se converta em mais uns milhares de quilômetros do Muro Contra a China. Os autores dessa agressão são setores da alta burguesia brasileira, servidos por um bando de lúmpen-políticos e de militares que nunca esqueceram o que aprenderam na infame Escola das Américas.
O desafio aos democratas é cumprir uma dupla missão. A curto prazo, a missão é impedir que os fascistas cheguem ao poder e transformem o Brasil em mais um protetorado norte-americano. A médio prazo, a missão é convencer os brasileiros de que a vitória nas próximas eleições, por mais confortável e saborosa que seja, é apenas o ponto de partida para uma luta muito maior, assente nesta ideia simples e imensa: a recolonização profunda só se combate com democratização profunda.
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FONTE: https://www.brasil247.com/blog/brasil-os-sinos-dobram-por-ti/