Queda da fertilidade para cerca de um filho por mulher acelera transformação demográfica e leva país a investir em prevenção, longevidade, inteligência artificial e novas tecnologias para o cuidado dos idosos.
247 – A China está transformando seu sistema de saúde e acelerando investimentos em inteligência artificial, robótica, biotecnologia e medicina preventiva para enfrentar uma das maiores mudanças demográficas de sua história. Com a taxa de fertilidade em torno de um filho por mulher e uma população que envelhece rapidamente, o país procura desenvolver tecnologias capazes de ampliar a longevidade saudável e compensar a redução relativa da força de trabalho e a crescente necessidade de cuidadores.
As informações são de Lakshmy Ramakrishnan, pesquisadora associada do Centre for New Economic Diplomacy da Observer Research Foundation (ORF), cujo trabalho se concentra na interseção entre biotecnologia, saúde e relações internacionais. A análise aponta que a China está migrando gradualmente de um sistema predominantemente voltado ao tratamento de doenças para uma estratégia de prevenção, detecção precoce e acompanhamento da saúde ao longo de toda a vida.
A transformação envolve desde programas relativamente tradicionais de vacinação e exames preventivos até tecnologias de fronteira, como robôs humanoides para assistência a idosos, inteligência artificial aplicada à medicina, interfaces cérebro-computador, medicina regenerativa e pesquisas destinadas a medir e eventualmente retardar o envelhecimento biológico.
O desafio é gigantesco. Depois de décadas de rápida expansão econômica sustentada por uma população numerosa em idade de trabalhar, a China entra em uma nova fase na qual haverá proporcionalmente mais idosos e menos jovens. Pequim procura transformar tecnologia e ciência em instrumentos para reduzir os impactos econômicos e sociais dessa mudança.
Fertilidade cai para cerca de um filho por mulher
A transformação demográfica chinesa tem raízes profundas.
A política do filho único, implementada em 1980 para conter o crescimento populacional, contribuiu para uma queda prolongada da natalidade. Décadas depois, quando o governo passou a flexibilizar e posteriormente abandonar as antigas limitações, a estrutura social e econômica do país já havia mudado.
O aumento do custo da moradia, educação e criação dos filhos, além das transformações no mercado de trabalho e no comportamento das novas gerações, contribuiu para manter a fecundidade em níveis baixos.
Mesmo com medidas governamentais de incentivo à natalidade, a tendência tem sido difícil de reverter.
Com menos nascimentos e maior expectativa de vida, aumenta rapidamente a proporção de idosos na população.
Isso modifica praticamente todas as áreas da sociedade: previdência, mercado de trabalho, estrutura familiar, consumo e, principalmente, saúde.
Menos jovens e mais idosos pressionam sistema de saúde
O envelhecimento produz um tipo diferente de demanda médica.
Uma população jovem tende a utilizar o sistema de saúde de maneira diferente de uma população com grande proporção de pessoas acima de 60 ou 65 anos.
Com o avanço da idade, cresce a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, como problemas cardiovasculares, câncer, diabetes e enfermidades neurodegenerativas.
Também aumenta a necessidade de acompanhamento prolongado.
O desafio deixa de ser apenas tratar episódios isolados de doença e passa a envolver a manutenção da funcionalidade física e cognitiva durante décadas.
É nesse contexto que a China procura reorganizar sua política de saúde.
Prevenção ganha espaço
Uma das principais mudanças está na tentativa de antecipar os problemas antes que eles se transformem em doenças graves.
A estratégia envolve triagens, vacinação, mudanças comportamentais, acompanhamento contínuo e detecção precoce de fatores de risco.
Em termos econômicos, a lógica é relativamente simples.
Uma sociedade com centenas de milhões de idosos terá enormes dificuldades para sustentar um sistema concentrado apenas em intervenções hospitalares realizadas depois que as doenças já atingiram estágios avançados.
Prevenir ou retardar doenças pode reduzir custos e, principalmente, aumentar o número de anos em que as pessoas permanecem independentes.
O objetivo deixa de ser apenas prolongar a vida.
A prioridade passa a ser ampliar a vida saudável.
Meta é chegar aos 80 anos de expectativa de vida
A estratégia chinesa estabelece como uma das referências elevar a expectativa média de vida para 80 anos até 2030.
O avanço dependerá não apenas de hospitais e medicamentos, mas de uma estrutura capaz de acompanhar a saúde das pessoas ao longo da vida.
A detecção precoce é central nessa estratégia.
Identificar fatores de risco antes do aparecimento de doenças graves pode permitir intervenções mais simples e menos dispendiosas.
Ao mesmo tempo, a manutenção da capacidade funcional dos idosos torna-se um indicador tão importante quanto o número absoluto de anos vividos.
É nesse ponto que tecnologia digital, inteligência artificial e robótica começam a ocupar um papel crescente.
Robôs podem ajudar a enfrentar escassez de cuidadores
Uma das consequências da baixa fertilidade é a redução potencial do número de pessoas disponíveis para cuidar de uma população idosa crescente.
O modelo tradicional, no qual filhos e familiares assumem grande parte do cuidado dos idosos, fica sob pressão quando as famílias se tornam menores.
A China procura responder ao problema com automação.
Robôs humanoides e outros sistemas automatizados estão sendo desenvolvidos para desempenhar tarefas relacionadas à assistência e ao acompanhamento de idosos.
Essas máquinas podem auxiliar em atividades cotidianas, monitorar determinados sinais e reduzir parte da carga sobre cuidadores humanos.
A proposta não é necessariamente substituir integralmente médicos, enfermeiros ou familiares.
A tecnologia pode funcionar como multiplicadora da capacidade de uma força de trabalho que terá de atender um contingente muito maior de idosos.
Inteligência artificial entra no cuidado cotidiano
A IA representa outro componente dessa transformação.
Sistemas digitais podem acompanhar informações de saúde continuamente e identificar mudanças que indiquem risco.
Dispositivos inteligentes podem coletar dados sobre movimento, sono, frequência cardíaca e outros indicadores.
Algoritmos podem analisar essas informações e ajudar a identificar padrões difíceis de perceber em consultas médicas ocasionais.
Para idosos que vivem sozinhos, tecnologias de monitoramento também podem alertar familiares ou profissionais de saúde diante de situações de emergência.
Em um país com a escala populacional da China, a automação de parte dessas atividades pode ter impacto significativo sobre os custos e a disponibilidade dos serviços.
China explora interfaces cérebro-computador
A estratégia tecnológica vai além dos robôs e aplicativos.
A China também investe em áreas de fronteira da neurociência, incluindo interfaces cérebro-computador.
Esses sistemas procuram estabelecer formas de comunicação entre a atividade neural e dispositivos externos.
Entre as possibilidades estudadas internacionalmente estão aplicações destinadas a pessoas com limitações motoras ou neurológicas, permitindo controlar equipamentos ou recuperar parcialmente determinadas funções.
Para uma sociedade envelhecida, tecnologias capazes de preservar autonomia possuem enorme potencial.
Doenças neurodegenerativas e limitações motoras estão entre os principais fatores que reduzem a independência das pessoas em idade avançada.
Ciência tenta descobrir a idade biológica
Outro campo em expansão é a pesquisa sobre longevidade.
Projetos como o X-Age procuram desenvolver ferramentas capazes de avaliar a chamada idade biológica.
A idade cronológica informa simplesmente quantos anos uma pessoa viveu.
A idade biológica procura medir em que estado se encontram seus organismos, tecidos e sistemas fisiológicos.
Duas pessoas de 70 anos podem apresentar condições biológicas bastante diferentes.
Compreender essas diferenças pode ajudar pesquisadores a identificar fatores que aceleram ou retardam o envelhecimento.
A inteligência artificial torna-se particularmente útil nesse campo porque permite analisar grandes volumes de dados biológicos e procurar correlações entre genética, metabolismo, ambiente, comportamento e envelhecimento.
Biotecnologia mira o processo de envelhecimento
A ambição científica vai além de diagnosticar a idade biológica.
Empresas e centros de pesquisa chineses investigam formas de interferir nos próprios mecanismos celulares associados ao envelhecimento.
Entre as áreas pesquisadas estão intervenções farmacêuticas, medicina regenerativa, células-tronco e reprogramação celular.
Parte dessas abordagens permanece em estágios pré-clínicos ou experimentais, e resultados obtidos em laboratório ou em animais não significam automaticamente que existirão terapias seguras e eficazes para seres humanos.
Ainda assim, a quantidade de investimentos mostra como a longevidade está se transformando em um novo setor estratégico da biotecnologia.
O envelhecimento deixa progressivamente de ser estudado apenas como uma consequência inevitável do tempo e passa a ser investigado também como um conjunto de processos biológicos potencialmente modificáveis.
Envelhecer mais devagar vira fronteira científica
Essa mudança conceitual pode ter consequências profundas.
A medicina tradicional procura tratar individualmente doenças que se tornam mais frequentes com o envelhecimento.
A ciência da longevidade parte de outra pergunta: seria possível atuar sobre determinados mecanismos comuns ao envelhecimento e, dessa forma, retardar simultaneamente o aparecimento de várias enfermidades?
Ainda não existe uma resposta definitiva.
Mas a possibilidade ajuda a explicar o interesse de governos, universidades e empresas de biotecnologia.
Se uma terapia conseguir aumentar não apenas a duração da vida, mas os anos vividos com boa saúde e independência, o impacto social e econômico poderá ser enorme.
Para a China, onde a escala do envelhecimento é particularmente grande, esse potencial adquire dimensão estratégica.
Áreas rurais representam desafio
A revolução tecnológica, entretanto, não alcança todas as regiões de maneira uniforme.
A China possui megacidades com hospitais sofisticados, infraestrutura digital avançada e grandes centros de pesquisa.
A realidade pode ser muito diferente em áreas rurais.
Nessas regiões, a disponibilidade de profissionais especializados e infraestrutura médica é mais limitada, o que dificulta a implementação de tecnologias avançadas.
A digitalização pode ajudar a diminuir algumas distâncias por meio de monitoramento remoto e telemedicina.
Mas ela também depende de conectividade, equipamentos e capacidade das pessoas de utilizar essas ferramentas.
A desigualdade de acesso torna-se, portanto, um dos grandes desafios da política de envelhecimento.
Da medicina da doença para a medicina da longevidade
A transformação em andamento representa uma mudança mais ampla na concepção de saúde pública.
O modelo tradicional começa com a doença: uma pessoa apresenta sintomas, procura atendimento e recebe tratamento.
A nova abordagem procura começar muito antes.
Dados, exames, comportamento e histórico médico podem ser utilizados para estimar riscos e realizar intervenções preventivas.
Ao longo da vida, esse acompanhamento poderia ser ajustado conforme a idade e as condições de cada pessoa.
Inteligência artificial e dispositivos digitais tornam esse modelo tecnicamente mais viável porque permitem analisar uma quantidade de informações impossível de ser processada individualmente por profissionais de saúde.
Demografia transforma tecnologia em necessidade estratégica
A aposta chinesa em robótica, IA e biotecnologia não ocorre apenas por interesse científico.
Existe uma pressão demográfica concreta.
Uma sociedade com menos trabalhadores jovens e mais idosos precisará encontrar maneiras de aumentar a produtividade do sistema de saúde e reduzir a necessidade de cuidados intensivos.
Robôs podem auxiliar cuidadores.
IA pode ampliar a capacidade de acompanhamento médico.
Diagnósticos precoces podem reduzir hospitalizações.
Medicina preventiva pode retardar doenças crônicas.
Biotecnologia e medicina regenerativa podem, no futuro, ampliar a quantidade de anos vividos com independência.
A soma dessas tecnologias forma uma estratégia para administrar uma transformação demográfica que dificilmente poderá ser revertida rapidamente apenas por políticas de estímulo à natalidade.
China tenta transformar envelhecimento em nova fronteira tecnológica
O tamanho do desafio também cria um enorme mercado.
Centenas de milhões de pessoas envelhecendo representam demanda crescente por medicamentos, equipamentos médicos, residências adaptadas, assistência domiciliar, robótica e serviços digitais de saúde.
A China possui ainda uma vantagem importante para desenvolver soluções nessa área: escala.
Tecnologias testadas e implementadas em um mercado dessa dimensão podem ganhar rapidamente experiência de uso e redução de custos.
Se forem bem-sucedidas, poderão posteriormente ser exportadas para outros países que enfrentam processos semelhantes de envelhecimento.
Japão, Coreia do Sul e diversos países europeus já convivem com problemas demográficos parecidos, enquanto outras sociedades caminham na mesma direção.
A queda da fertilidade chinesa, portanto, representa um enorme desafio econômico e social, mas também está acelerando uma transformação científica.
Ao combinar prevenção, inteligência artificial, robótica, interfaces cérebro-computador, medicina regenerativa e pesquisas sobre longevidade, a China tenta responder a uma pergunta que ganhará importância crescente em todo o planeta: não apenas como fazer as pessoas viverem mais, mas como permitir que vivam mais tempo com saúde, autonomia e qualidade de vida.
FOTO: Brasil 247 / Dall-E
FONTE: https://www.brasil247.com/sul-global/china-aposta-em-ia-robos-e-biotecnologia-para-enfrentar-envelhecimento-da-populacao/