Associação Brasileira dos Jornalistas

Seja um associado da ABJ. Há 17 anos lutando pelos jornalistas (1)

Se queres pax, prepara-te para a guerra da IA

Indo além do acordo Pax Silica, os EUA pressionam os países a decidirem de que lado estão na corrida pela adoção da IA. Como deve se posicionar o Brasil diante deste ultimato já tendo feito um aceno para a iniciativa chinesa?

Se a notícia da Reuters se confirmar, os Estados Unidos colocarão contra a parede os 34 países que assinaram com eles uma declaração conjunta sobre a geopolítica de inteligência artificial. De acordo com a agência, uma minuta do Departamento de Estado dos Estados Unidos está sendo elaborada para ser endereçada às nações signatárias da Declaração de Oportunidade em IA, que foi tornada pública no âmbito do segundo encontro da iniciativa Pax Silica, criada pelo governo de Donald Trump para viabilizar uma zona de segurança e garantia de cadeia de suprimentos como chips, infraestrutura de IA e minerais críticos.

O ultimato vem de uma ameaça clara contida na carta: “Fazer parte de tudo é não fazer parte de nada. A assinatura da Declaração Pax Silica não é uma mera adesão, mas um compromisso”. O documento convoca cada país a “escolher deliberadamente” em matéria de IA, e uma fonte anônima ouvida pela agência é ainda mais direta ao dizer que não dá para ficar dos dois lados, porque seria difícil imaginar como um país pode se apresentar de forma crível como parceiro confiável de um ecossistema tecnológico enquanto adere a uma iniciativa desenhada por outro para promover uma visão concorrente. O outro lado, no caso, é a World Artificial Intelligence Cooperation Organization (Waico), criada pela China em meados de julho, e cujo acordo constitutivo o Brasil assinou ao lado de outros 28 países. No final de julho, o grupo aumentou para 37 nações.

Pax relativa

A declaração estadunidense já tinha feito os países assumirem quatro compromissos que com a carta podem agora se tornar contratos de exclusividade: regulação pró-inovação (adoção de arcabouços legais que promovam investimento e empoderem os empreendedores), cooperação ampla em minerais críticos, energia e semicondutores, mobilização da indústria privada com fluxos transfronteiriços de capital de risco e prosperidade compartilhada. Dentro do segundo deles se esconde um item digno de nota, que é a possibilidade de se exportar conjuntamente o “AI stack” americano, incluindo conectividade confiável, a países parceiros.

Este item se torna o principal atrativo do programa ao garantir que os 35 signatários não serão apenas clientes preferenciais dos EUA mas co-vendedores de uma pilha tecnológica para os que ficaram de fora do clube. Ao contrário das sanções tarifárias e investigações da Seção 301 que o mundo já não se espanta, a exclusão não se dá por punições mas pela retirada de benefícios, como os mecanismos de acesso a semicondutores avançados e infraestrutura digital além de oportunidades de co-investimento. Junto com a Pax Silica, os EUA anunciaram a implementação do AI Assistance Project, que promete injetar US$ 50 milhões nas nações amigas, iniciando por um piloto de credenciamento de carga no Panamá.

Tudo muito interessante não fosse a intenção vazada de transformar a pax romana digital em guerra. Porque uma paz duradoura na relação com o centro se sustenta por benefícios distribuídos a quem aceita a presença do império. No momento em que este vínculo se torna obrigatório e exclusivo, o acordo deixa de ser bem público do bloco e vira arma com seu cano voltado à Pequim.

O timing de Washington para apresentar a carta-ultimato se explica pelos movimentos que vêm do Oriente. Quinze dias após seu lançamento, a Waico passou de 29 para 37 integrantes com o ingresso de Irã, Sudão, Vietnã, Geórgia, Tanzânia, Dominica, Brunei e Togo. Passam-se outras duas semanas e se ventila que a carta dos EUA está sendo preparada. Da primeira leva de países da organização chinesa, vale destacar que o Cazaquistão é o único que colocou cada pé em uma canoa, tendo assinado a Pax Silica e sua declaração mas também virado sócio-fundador da Waico. Dos novos frequentadores do condomínio chinês, Vietnã (montagem de semicondutores como friendshoring dos EUA), Brunei (fornecedor de energia com relações ocidentais estáveis) e Dominica (primeira adesão caribenha e membro da CARICOM) são as adesões que mais incomodam os idealizadores estadunidenses e podem ter acelerado os planos do Departamento de Estado.

A dimensão dos blocos

Para dimensionar a disputa, é importante comparar os dois grupos que estão surgindo. A tabela a seguir mostra uma assimetria de natureza. De um lado, a vantagem do grupo liderado pela China em população e território; de outro, um PIB agregado de US$ 61,6 trilhões na Pax Silica contra US$ 28,6 trilhões.

Quadro comparativo dos dois grupos

WAICO — Organização Mundial para Cooperação em IA Declaração de Oportunidade em IA / Pax Silica
Marco de criação Xangai, 16/07/2026, com segunda leva em 30-31/07 Washington, junho/2026, na 2ª Cúpula Pax Silica
Nº de países 37 signatários 35 signatários, 34 destinatários da carta
Nomes dos países África do Sul, Argélia, Belarus, Brasil, Brunei, Camarões, Camboja, Cazaquistão, China, Congo, Cuba, Dominica, Etiópia, Geórgia, Indonésia, Irã, Laos, Lesoto, Malásia, Moçambique, Myanmar, Nicarágua, Omã, Paquistão, Quênia, Quirguistão, Rússia, Senegal, Sérvia, Sudão, Tajiquistão, Tanzânia, Togo, Uzbequistão, Venezuela, Vietnã, Zâmbia Alemanha, Argentina, Armênia, Austrália, Bahrein, Catar, Cazaquistão, Chile, Cingapura, Coreia do Sul, Costa Rica, Dinamarca, El Salvador, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Estônia, Filipinas, Finlândia, Grécia, Índia, Israel, Itália, Japão, Letônia, Lituânia, Noruega, Nova Zelândia, Países Baixos, Panamá, Paraguai, Polônia, Portugal, Reino Unido, Suécia, Turquia
População total 3,30 bilhões — 40,5% do mundo 2,67 bilhões — 32,7%
PIB total US$ 28,6 tri nominais (25,9%) · US$ 69,9 tri em PPC (35,0%) US$ 61,6 tri nominais (55,8%) · US$ 90,8 tri em PPC (45,4%)
Território total 57,4 mi km² — 42,2% 32,5 mi km² — 23,9%

Fonte: Elaboração do autor

Mas há muito chão pela frente porque frente aos 71 países de ambos os lados existem 122 a serem disputados. Entre eles, França e Espanha, que não constam das listas divulgadas apesar de a União Europeia ter aderido à Pax Silica. Outra diferença é que esta competição pode se dar no âmbito das Nações Unidas, como pleiteia a China, ou em relações bilaterais assimétricas como já vem executando os EUA.

E o desequilíbrio se dá também em termos de entrega. A Waico nasceu com estatuto, personalidade jurídica, sede e depositário, mas até o fechamento deste texto não há registro público de secretariado instalado, de depósito de ratificações nem de secretário-geral designado, e as promessas feitas pelo presidente Xi Jinping no lançamento — 5.000 ações de capacitação, centros regionais — ainda estão em construção. Do outro lado, a Pax Silica lançou edital em agosto e vem ampliando sua capacidade de investimento, mesmo que em condição de desequilíbrio e com uma vantagem unilateral por deter os meios e os insumos. A diferença é que uma delas vem somando assinaturas enquanto a outra vem montando estrutura.

A desconfortável decisão brasileira

A manchete da Reuters esconde um detalhe decisivo no debate que nos interessa, que é o fato de a carta do Departamento de Estado não alcançar o Brasil. Ela é endereçada aos 35 signatários da Declaração de Oportunidade em IA e o Brasil não assinou nem essa declaração nem aderiu à Pax Silica. Na lista dos 35 há seis latino-americanos — Argentina, Chile, Costa Rica, El Salvador, Panamá e Paraguai. Do ponto de vista de Washington, portanto, não há ultimato a fazer ao país, porque não há adesão a revogar. Até o momento, o Brasil está do outro lado.

E chegou lá por uma decisão tomada em 16 de julho, não por uma escolha que ainda esteja em aberto. A carta vazada de Washington não muda uma linha do acordo assinado em Xangai, que continua aberto, não excludente e sem teste de valores. Muda o preço de tê-lo assinado. Até agosto, a adesão comportava várias leituras — gesto multilateral, aposta no Sul Global, pesos abertos, garantia diplomática —, e nenhuma delas custava nada. Depois que o Departamento de Estado registrou por escrito que as duas filiações não podem coexistir, apenas uma dessas leituras produz consequência material, e não é a de Brasília. Como não está entre os 35 destinatários da Declaração, o Brasil não chega a ser coagido, e sim classificado por observação da regra aplicada aos outros. A classificação vale porque quem a escreveu controla o acesso a chips, o coinvestimento e a via logística que a alternativa chinesa ainda não oferece.

O paradoxo é que o Brasil pesa muito no bloco em que entrou. Descontada a China, o país responde por 22% de todo o PIB da Waico. É, ao lado da Rússia, a maior economia do bloco depois da chinesa, com 6,4% de sua população e 15% de seu território. E é a única democracia de grande porte da América Latina na organização, num quadro em que a Índia, a outra potência de IA do Sul Global, ficou de fora depois de assinar a declaração ligada à Pax Silica. Nada disso é acidente diplomático menor, e sim uma posição de sócio, com tudo o que ela permite em matéria de barganha.

O custo doméstico dessa posição, no entanto, subiu bruscamente entre 30 de julho e 14 de agosto. A lista fundadora fechou com oito adesões novas, entre elas Irã e Sudão, de modo que o Brasil passou a figurar no mesmo documento que Teerã e Cartum, somados a Minsk, Havana, Caracas e Manágua, que já constavam desde julho. A porta aberta sem teste de valores, virtude declarada do estatuto chinês e contraponto exato ao clube estadunidense, funcionou como havia sido projetada, com o efeito colateral de produzir uma companhia difícil de sustentar em plenário. A ratificação passa pelo Congresso Nacional em ano eleitoral. Quem for defendê-la defenderá também os demais nomes dessa lista e será cobrado por eles.

Há ainda uma dimensão da incompatibilidade que o debate brasileiro não incorporou e que talvez seja a mais consequente de todas, porque não é geopolítica, e sim regulatória. O primeiro compromisso substantivo da Declaração de Oportunidade em IA é a promoção de regulação pró-inovação, entendida como a adoção de arcabouços que favoreçam investimento e ampliem a margem de operação de desenvolvedores e plataformas. Traduzido para a agenda brasileira em curso, isso colide frontalmente com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, sancionado em setembro de 2025 e em vigor desde março, com o projeto de marco legal da inteligência artificial, com o projeto de lei de regulação de mercados digitais e com a tributação de plataformas.

O Brasil, portanto, não poderia assinar mesmo que quisesse, a menos que revogasse a própria agenda legislativa. E esse ponto desloca a conversa inteira. A retórica do ultimato pergunta de que lado o país está, quando o custo da adesão já estava precificado em leis aprovadas e projetos em tramitação muito antes de qualquer carta vazada. A escolha brasileira não está sendo feita agora, sob pressão, e vem sendo feita em parcelas, no Congresso Nacional e no Poder Executivo, ao longo dos últimos dois anos.

Dois polos que se fecham

O debate brasileiro sobre o assunto vinha operando com uma oposição confortável ao entender que existiria um polo fechado e proprietário, liderado por Washington, e um polo aberto e de pesos livres, oferecido por Pequim. Essa leitura descrevia bem o ano passado, mas descreve mal o momento atual, em que os dois polos vêm se fechando ao mesmo tempo e pelas mesmas razões.

Do lado americano, o precedente já não é hipótese. Como escrevemos, em junho de 2026 uma diretiva de controle de exportação do governo Trump barrou o acesso de estrangeiros aos modelos mais avançados da Anthropic e a empresa cortou o acesso mundial sem aviso prévio. O acesso foi restabelecido em 1º de julho, depois que o Departamento de Comércio suspendeu os controles, o que reforça em vez de atenuar o argumento, porque revela uma chave operada por decisão administrativa e reversível nos dois sentidos. Dias depois, às margens da cúpula da Pax Silica, a Índia precisou pedir garantias de que a tecnologia já concedida não seria desligada. O botão existe, já foi acionado uma vez, e um país que depende dele precisou pedir publicamente que não o acionassem de novo.

Do lado chinês, o movimento é mais recente e menos comentado. Na mesma semana em que Xi Jinping constitucionalizava o código aberto como princípio de cooperação em Xangai, seu governo estudava restringir o acesso externo a alguns de seus melhores modelos, tensão explicitada agora pela própria reportagem da Reuters. E o texto do tratado é mais modesto do que a retórica da cerimônia sugere. O código aberto entrou no acordo constitutivo como função a encorajar, não como obrigação de acesso, e a declaração final de Xangai o condiciona à proteção adequada da propriedade intelectual, eco literal da acusação dos EUA de que os pesos abertos chineses seriam mercadoria derivada. Pesos abertos, ali, são política pública revogável, não direito assegurado a algum membro.

A explicação para esse fechamento simultâneo está no mesmo trecho em que a Reuters justifica a urgência da carta. A disputa chegou a um ponto decisivo porque os modelos chineses de pesos abertos avançaram rapidamente sobre os sistemas proprietários de OpenAI e Anthropic, a ponto de sua participação no consumo de tokens de empresas americanas ter saltado de menos de 10% em meados de 2025 para algo próximo de 40% um ano depois. Acrescente-se a isso o argumento de securitização que Washington repete desde o início do ano, o de que a capacidade autônoma de ataque cibernético transformou modelos de fronteira em artefato de segurança nacional. Portanto, a abertura deixou de ser gesto de generosidade estratégica de quem estava atrás e passou a ser um ativo de quem chegou perto, com tudo o que isso costuma implicar em termos de proteção.

Para o Brasil, isso desmonta o conforto do argumento mais repetido desde julho, o de que aderir à Waico garantiria autonomia porque um modelo baixado e rodado em servidor próprio não pode ser desligado por decisão estrangeira. A afirmação é verdadeira para aquela cópia específica e falsa para tudo o mais, já que não vale para as atualizações, para a geração seguinte, para o suporte técnico e a correção de vulnerabilidades, nem sobretudo para a camada em que o modelo roda. O risco de chave desligada é simétrico, muda apenas de operador.

A distinção que falta ao debate é entre camadas. Código aberto resolve a camada de software, mas não resolve silício, energia, data centers, refino de minerais nem logística de embarque, que é o perímetro delimitado pela Pax Silica desde dezembro de 2025 e que o piloto panamenho começa a operacionalizar. Um país pode ter todos os pesos do mundo em servidores locais e continuar sem ter onde rodá-los, ou rodá-los em infraestrutura que outro governo licencia.

Ou seja, não há um polo aberto a que aderir, e sim dois regimes de acesso condicionado que diferem no critério de admissão e na velocidade com que se fecham. A escolha real que o Brasil enfrenta é menos entre Washington e Pequim do que entre seguir dependendo de uma chave alheia e começar a construir a camada que nenhum dos dois polos tem interesse em partilhar.

Não alinhamento como heresia

A formulação da fonte ouvida pela Reuters merece leitura atenta porque ela não estabelece uma condição de acesso, e sim uma condição de credibilidade. O que se declara impossível ali não é a dupla filiação em si, mas a boa-fé de quem a pratica. O alcance disso para a política externa brasileira é considerável, porque o que a doutrina classifica como incoerência é o método que a diplomacia brasileira pratica desde sempre, e não apenas nos governos que o formularam explicitamente. O país integra o BRICS e negocia com a União Europeia. Mantém a China como principal parceiro comercial e os Estados Unidos como principal origem de investimento estrangeiro. Ocupa cadeira na GPAI e assinou o acordo constitutivo da Waico. Não se trata de indecisão nem de esperteza tática, mas de autonomia por diversificação, que é o recurso disponível a um país de renda média para não converter dependência econômica em subordinação política. A carta de Washington não pede que o Brasil escolha um lado. Pede que abandone o método.

O antecedente mais claro dessa disputa é de junho e vale relê-lo à luz do que veio depois. No almoço a portas fechadas do G7 em Évian-les-Bains, os CEOs de Anthropic, Google DeepMind, OpenAI e Mistral apresentaram propostas de governança da inteligência artificial. Dario Amodei e Demis Hassabis pediram uma coalizão liderada pelos Estados Unidos para definir padrões globais; Sam Altman reivindicou um fórum internacional de testagem. O presidente da França, Emmanuel Macron, divergiu de Trump sobre o método, chamou o controle unilateral de exportação de protecionista e advertiu que a capacidade americana de desligar a chave a qualquer momento corrói a confiança nas próprias empresas dos Estados Unidos, o que ajuda a explicar a reticência francesa diante da Pax Silica. Mas a divergência era sobre quem comanda o clube e quem são seus sócios, não sobre se ele deve ser seleto. Convidado ao encontro, o Presidente Lula foi a única voz a questionar a existência do clube, ao sustentar que nenhum foro substitui a universalidade das Nações Unidas. Dois meses depois, a carta do Departamento de Estado responde a essa posição sem citá-la, ao estabelecer que pertencer a mais de um arranjo equivale a não pertencer a nenhum.

Posta em série, a política estadunidense para o tema desenha um arco de três tempos. Em fevereiro, a Reuters revelou o telegrama interno do Departamento de Estado, assinado por Marco Rubio, instruindo diplomatas a combater iniciativas de soberania de outras nações e localização de dados; a Seção 301 e a ameaça tarifária davam a essa instrução o lastro material. Era a coerção. Em junho, o subsecretário Jacob Helberg publicou “A armadilha da soberania digital”, texto que não nega a soberania, e sim a redefine, propondo que a única autonomia legítima seria a capacidade de inovar dentro de um ecossistema de confiança liderado por Washington. Era a sedução e o texto saiu também em português, o que diz bastante sobre o público visado. Agora vem a cláusula de exclusividade, que dispensa tanto a ameaça quanto o elogio e opera por classificação. Coerção, sedução e enquadramento não são políticas distintas. São a mesma doutrina em três registros, e o terceiro é de longe o mais barato para quem o aplica.

Há precedente histórico para o desfecho e ele não é animador. Entre 1995 e 2005, quando a estrutura lógica da internet foi institucionalizada, Washington e o Vale do Silício impuseram um modelo de governança privada sob o rótulo do multissetorialismo e os países que pediram a ONU como locus de decisão saíram de lá com um fórum de diálogo sem poder vinculante. Nem as revelações de Edward Snowden em 2013, que alcançaram a própria presidente Dilma Rousseff, nem o NetMundial de 2014 abalaram a arquitetura.

A diferença de 2026 é o único motivo para não tratar o desfecho como escrito. Naquela disputa, o fórum universal chegou depois do fato consumado. Desta vez, o Diálogo Global da ONU, criado por resolução da Assembleia Geral em 2025, reuniu-se pela primeira vez em julho, antes da consolidação dos regimes concorrentes, com mandato permanente e calendário próprio. O risco, porém, é de outra ordem. Os dois polos tratam a ONU de maneiras opostas e igualmente interessadas — os manifestos americanos a ignoram por desenho, enquanto a declaração final de Xangai a nomeia e apoia expressamente — o secretário-geral da ONU compareceu à cerimônia de fundação da Waico, ao lado do chanceler chinês. Entre a indiferença de um lado e o abraço do outro, o fórum universal pode deixar de ser a mesa a que ambos se submetem para virar câmara de legitimação de quem o cortejou primeiro. Foi contra isso, e não a favor de um dos clubes, que a voz brasileira se levantou em Évian.

Ratificação como último ato soberano

A assinatura de julho não colocou o Brasil dentro da Waico. Colocou-o na antessala. O acordo constitutivo entra em vigor com um número reduzido de ratificações e a cadeira brasileira só se converte em voto depois do depósito do instrumento, que passa pelo Congresso Nacional sob escrutínio público em plena campanha eleitoral. Até lá, o país é signatário sem ser membro pleno, condição que a nota conjunta dos três ministérios registrou de forma deliberada ao condicionar a entrada concreta aos procedimentos internos, inclusive quanto à eventual ratificação. Era prudência diplomática, e virou, depois da carta vazada, a única alavanca que resta.

Ela não permite desfazer a classificação que o país já sofreu nem recuperar o acesso preferencial de que nunca dispôs, mas permite algo mais modesto e mais útil, que é negociar o preço da própria entrada com a parte que ainda a deseja. Pequim tem interesse evidente em que a maior economia da organização depois da chinesa complete o processo porque é a ratificação brasileira que distingue a Waico de um arranjo de países isolados. Esse interesse funciona como moeda de troca e o prazo de validade dela é curto. Uma vez depositado o instrumento, a opcionalidade acaba e o Brasil passa a negociar de dentro, com um voto entre 37.

O que se pode exigir em troca é curto o bastante para caber num relatório de comissão. Primeiro, uma âncora de direitos, que o tratado não tem e que os manifestos dos laboratórios de fronteira tampouco oferecem — o estatuto limita as funções ao domínio civil, avanço em relação ao regime americano fundido ao aparato militar, mas silencia sobre proteção de dados, devido processo e responsabilização. Segundo, obrigação material em energia e sustentabilidade, tema que a declaração de Xangai apenas tangencia ao falar em integração com sistemas energéticos sem vincular ninguém a nada, enquanto as projeções da Agência Internacional de Energia apontam data centers consumindo 945 terawatts-hora por ano até 2030. Terceiro, a conversão das promessas do discurso de abertura de Xi em compromissos verificáveis — o encorajamento ao código aberto transformado em obrigação de acesso a modelos e pesos, com cláusula de não revogação; as cinco mil ações de capacitação repartidas por critério e cronograma; e os centros regionais de cooperação convertidos em capacidade de computação instalada, com contrapartida industrial mensurável.

Há ainda um ativo que o Brasil não usou e cujo valor cresce neste momento. Ao lado de Senegal e Sérvia, o país está entre os pouquíssimos com assento simultâneo na Waico e na GPAI, o clube ocidental de IA ligado à OCDE. Numa arquitetura que se organiza para tornar essas duas posições mutuamente exclusivas, ocupar as duas deixa de ser ambiguidade e passa a ser uma função, a de tradutor entre regimes que não se falam. Como nenhum dos dois blocos tem interesse em criar essa figura, ela só pode ser exercida por quem já a detém, e é o que separa a indefinição de um método.

Nada disso, porém, substitui o que nenhuma adesão resolve. Nem a Pax Silica nem a Waico entregam ao Brasil encomenda tecnológica que puxe demanda pública para fornecedor nacional, funding de longo prazo para infraestrutura de computação, política energética que reconheça data center como carga industrial estratégica ou formação de engenheiros e pesquisadores na escala que a agenda exige. Esses quatro itens dependem de orçamento, de lei e de decisão administrativa doméstica, e são, coincidentemente, aquilo que aparece nos programas e não aparece nas execuções. Uma ratificação bem negociada melhora a posição do país. Uma ratificação que substitua a agenda interna pelo pertencimento a um bloco apenas troca a dependência de fornecedor pela dependência de patrono.

Uma pax que não foi

A iniciativa dos EUA foi lançada em dezembro de 2025 com nome em latim, escolha que evoca a ordem imperial romana e sua promessa de estabilidade em troca de submissão ao centro. Oito meses depois, a mesma diplomacia que a batizou redigiu um documento informando aos signatários que pertencer a mais de um arranjo equivale a não pertencer a nenhum. Uma paz que precisa exigir exclusividade já admitiu que está em guerra. A rapidez dessa conversão diz menos sobre má-fé do que sobre desenho, já que a arquitetura foi montada desde o início para funcionar por exclusão e a linguagem da cooperação servia de invólucro. Do outro lado, a China joga parada e deixa o número de adesões crescer, sem responder à carta senão pela via previsível de acusar a politização do comércio e da tecnologia. Não precisa responder mais que isso, porque cada país que Washington obriga a escolher é um país que Pequim não precisou convencer.

O que se disputa, portanto, não é adjetivo nem foro. Não é se a governança será multilateral ou multissetorial, aberta ou confiável, inclusiva ou segura, já que todos os documentos em circulação usam todas essas palavras e nenhuma delas obriga a nada. O que se disputa é quem desenha o mapa, quem define o que conta como parceiro e o que conta como risco, por onde passa a carga de componentes, quem tem acesso aos pesos, quem tem energia para rodar os modelos e quem terá permissão de fabricar em vez de apenas consumir. É nessa camada que a soberania se mede e é a única em que nenhuma assinatura substitui capacidade.

Resta a pergunta que o ultimato pretende formular no lugar do Brasil, e ela não diz respeito ao lado em que o país está, e sim à sua capacidade de transformar uma posição herdada numa posição escolhida. Isso depende de o Congresso tratar a ratificação como negociação e não como formalidade, de a agenda doméstica de computação, energia e formação sair do papel antes que a janela se feche, e de a diplomacia brasileira sustentar em foro universal aquilo que o Presidente sustentou em Évian. Margem de manobra não é o que sobra de não escolher. É o que se constrói para poder escolher. E ela não se obtém respondendo sim à carta de ninguém.

FOTO: Jernej Furman from Slovenia

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/se-queres-pax-prepara-te-para-a-guerra-da-ia/