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Falta de amor-próprio, síndrome de Estocolmo ou dissonância cognitiva?

Entre cloroquina, teorias da conspiração e ilusões, a recusa em admitir erros revela a dependência emocional do bolsonarismo.

Existe um momento em que a gente precisa parar, respirar fundo e fazer uma pergunta incômoda: afinal, o que leva alguém a continuar defendendo quem já lhe fez passar tanta vergonha? Seria falta de amor-próprio? Síndrome de Estocolmo? Ou aquela velha dissonância cognitiva, que faz a pessoa preferir acreditar na própria fantasia a admitir que caiu numa conversa?

O bolsonarismo é um verdadeiro laboratório dessas experiências. Seus seguidores já foram convidados a entrar em tantas furadas que, se existisse um programa de milhagem para desilusões políticas, muitos estariam viajando de graça pelo mundo.

Comecemos pela cloroquina. Em plena pandemia, enquanto médicos e cientistas tentavam salvar vidas, Bolsonaro transformou um medicamento sem eficácia comprovada contra a Covid-19 em uma espécie de elixir patriótico. A cloroquina virou símbolo de fidelidade política. Quem questionava sua eficácia era tratado quase como inimigo da pátria. Teve gente que comprou, tomou, recomendou e ainda brigou com parentes por causa de um remédio que não cumpria a promessa milagrosa. A ciência perdeu para o grupo de WhatsApp.

Depois vieram as urnas fraudadas, os alienígenas, as certezas de uma intervenção militar, as promessas de que Trump resolveria os problemas brasileiros, as apostas em sanções internacionais e outras tantas profecias que não sobreviveram ao encontro com a realidade.

Agora chegamos ao Paraguai. Durante meses, brasileiros foram estimulados por influenciadores e entusiastas do bolsonarismo a atravessar a fronteira. O país vizinho era vendido como uma espécie de paraíso liberal: impostos baixos, liberdade econômica, prosperidade e, naturalmente, um governo de direita. Era quase a Suíça tropical dos sonhos bolsonaristas.

Muita gente embarcou na propaganda, mudou de endereço e levou suas economias. O problema é que alguns descobriram da pior maneira que o paraíso também tinha seus pecados. O Ueno Bank, instituição que atraía clientes pela facilidade de abertura de contas, enfrentou uma crise que levou ao bloqueio de recursos de clientes brasileiros. Problemas financeiros, operações de crédito de alto risco e relações com empresas ligadas ao grupo controlador levantaram questionamentos sobre a segurança do dinheiro. Para quem acreditou na propaganda, a experiência teve gosto de pirâmide: enquanto a promessa era de prosperidade, tudo parecia maravilhoso; quando chegou a hora de acessar o próprio dinheiro, a conversa mudou.

É aí que entram as três hipóteses do título. A falta de amor-próprio faz alguém aceitar humilhações sucessivas. A síndrome de Estocolmo ajuda a explicar a identificação emocional com quem o mantém refém. E a dissonância cognitiva produz uma ginástica mental admirável: quanto mais evidências aparecem contra uma crença, mais esforço se faz para protegê-la.

O curioso é que, a cada nova trapalhada, a explicação nunca está em quem conduziu o movimento. Está sempre nos outros. A imprensa mentiu, o STF perseguiu, os militares não entenderam, os aliados traíram, os institutos manipularam. O líder erra, mas o seguidor encontra uma maneira de transformar o erro em virtude.

Mas cada grupo tem sua porta de saída. Para os órfãos da cloroquina, a receita é trocar o grupo de WhatsApp por uma consulta médica e aceitar que ciência não é questão de opinião. Para os que ainda esperam que algum líder estrangeiro venha salvar o Brasil, talvez seja hora de descobrir que patriotismo não combina muito com terceirização da própria responsabilidade. E para os que acreditaram no paraíso paraguaio, vale lembrar que propaganda não é garantia bancária e que mudar de endereço não significa que isso não possa trazer sérias consequências.

Os casos mais profundos exigem uma terapia coletiva: menos culto à personalidade, mais leitura, informação confiável e disposição para reconhecer erros. Sei que para muitos isso é um exercício muito grande, mas não há vergonha em mudar de opinião. Vergonha é precisar inventar uma conspiração nova a cada semana para não admitir que a anterior deu errado.

Ninguém precisa abandonar suas convicções conservadoras, liberais ou de direita. A democracia precisa da diversidade de ideias. O que talvez seja necessário abandonar é a dependência emocional de políticos que transformam seguidores em figurantes de suas aventuras pessoais.

Porque amor-próprio também é isso: perceber quando alguém está fazendo você de escada, de escudo ou de cobaia.

E, se depois de tanta cloroquina, tanta conspiração, tanta promessa de golpe e tanta aventura paraguaia ainda houver quem não consiga enxergar o tamanho da encrenca, resta uma última recomendação: antes de comprar a próxima passagem, experimente comprar um espelho. Pode ser o primeiro passo de volta à realidade.

FOTO: Valter Campanato/Agência Brasil

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/falta-de-amor-proprio-sindrome-de-estocolmo-ou-dissonancia-cognitiva/