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O longo declínio britânico

A crise que nenhum primeiro-ministro conseguiu resolver.

A renúncia de Keir Starmer ao cargo de primeiro-ministro, anunciada em 22 de junho de 2026, às vésperas dos dez anos do referendo (Brexit), representa mais do que a queda de mais um líder político. Ela simboliza uma transformação profunda em um país que, durante séculos, foi visto como referência mundial de estabilidade institucional, previsibilidade política e continuidade administrativa.

Durante muito tempo, o Reino Unido orgulhou-se de ser o berço do parlamentarismo moderno. Sua monarquia constitucional atravessou guerras, crises econômicas e mudanças sociais sem rupturas dramáticas. Enquanto muitos países enfrentavam golpes, revoluções e períodos de instabilidade, os britânicos cultivavam a imagem de um sistema político sólido, capaz de absorver conflitos sem colocar em risco suas instituições.

Hoje, entretanto, essa imagem encontra-se seriamente abalada.

A saída de Starmer faz dele o sexto primeiro-ministro a deixar o cargo em menos de uma década. Um recorde para um país que era visto com o símbolo de estabilidade institucional. Antes dele vieram David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak. Em circunstâncias distintas, todos acabaram derrotados pela incapacidade de oferecer respostas duradouras aos desafios que o país enfrenta.

A sucessão acelerada de líderes não pode mais ser explicada por erros individuais ou acidentes políticos. O problema tornou-se estrutural.

O esgotamento do modelo construído por Thatcher

As raízes da crise britânica são mais profundas do que normalmente se admite e remontam às transformações iniciadas nos governos de Margaret Thatcher nos anos 1980.

A primeira-ministra conservadora promoveu reformas que alteraram profundamente a estrutura econômica do país. Privatizações, desregulamentação financeira, enfraquecimento dos sindicatos e redução do papel do Estado tornaram-se marcas de um novo modelo de desenvolvimento que, posteriormente, influenciaria boa parte do mundo ocidental.

Durante algum tempo, os resultados pareceram impressionantes. Londres consolidou-se como um dos principais centros financeiros do planeta. O mercado imobiliário valorizou-se. O setor de serviços expandiu-se. O Reino Unido tornou-se uma das vitrines do neoliberalismo.

Entretanto, os custos desse modelo foram sendo acumulados silenciosamente.

A dependência crescente do setor financeiro fragilizou a economia diante das crises internacionais. A desindustrialização reduziu a capacidade produtiva do país. O investimento em infraestrutura ficou aquém das necessidades. As desigualdades regionais ampliaram-se. Enquanto Londres prosperava, antigas regiões industriais do norte da Inglaterra, do País de Gales e de partes da Escócia experimentavam estagnação econômica, perda de empregos e deterioração social.

Décadas depois, os efeitos tornaram-se impossíveis de ignorar.

A população que votou pelo Brexit não estava simplesmente rejeitando a União Europeia. Estava expressando uma insatisfação profunda com um modelo econômico que produziu vencedores e perdedores em escala crescente.

Brexit: a revolta contra o sistema

O Brexit foi a manifestação política mais visível desse descontentamento.

O referendo de 2016 expressou a revolta de milhões de cidadãos que se sentiam abandonados pelas elites políticas e econômicas. A indignação popular tinha fundamento. O problema é que ela foi canalizada para um alvo que não correspondia inteiramente às causas da crise.

Segundo os defensores do Brexit, a culpa pelas dificuldades econômicas estaria em Bruxelas, na imigração e nas limitações impostas pela União Europeia. Bastaria recuperar a soberania nacional para que o país reencontrasse prosperidade e crescimento.

A realidade mostrou-se mais complexa. A saída da União Europeia não eliminou as desigualdades regionais, não reindustrializou a economia britânica e tampouco resolveu os problemas dos serviços públicos. Em vários aspectos, criou obstáculos ao comércio, aos investimentos e à circulação de trabalhadores.

Convém lembrar que o Reino Unido jamais aderiu integralmente ao projeto europeu. Diferentemente de muitos de seus parceiros continentais, preservou a libra esterlina e recusou-se a ingressar na zona do euro. Ao longo de décadas, negociou sucessivas exceções em temas considerados estratégicos, refletindo uma tradição política marcada pela defesa da soberania nacional e por certa desconfiança em relação aos projetos supranacionais.

O Brexit, portanto, não representou uma ruptura completa com uma adesão entusiástica à Europa. Foi o ponto culminante de uma relação historicamente ambivalente.

O problema é que abandonar a União Europeia não resolveu as contradições que haviam produzido o descontentamento inicial.

A dupla ruptura: Europa e Estados Unidos

Durante grande parte do século XX, o Reino Unido compensou o declínio de seu império por meio de dois pilares estratégicos. O primeiro era sua participação ativa na construção europeia. O segundo era sua estreita relação com os Estados Unidos.

O Brexit enfraqueceu o pilar número um e a ascensão de Donald Trump colocou em dúvida o outro.

Durante décadas, a chamada “relação especial” entre Londres e Washington funcionou como uma das bases da projeção internacional britânica. Os governos britânicos atuavam frequentemente como ponte entre os Estados Unidos e a Europa, extraindo influência justamente dessa posição intermediária. O trumpismo alterou profundamente essa equação.

Ao adotar uma postura cada vez mais unilateral, protecionista e centrada exclusivamente nos interesses norte-americanos, o governo de Trump enfraqueceu pilares da ordem atlântica construída após a Segunda Guerra Mundial. Muitos defensores do Brexit acreditavam que a saída da União Europeia seria compensada por uma parceria econômica privilegiada com Washington.

Essa expectativa revelou-se exagerada. Os Estados Unidos continuaram agindo de acordo com seus próprios interesses, sem oferecer ao Reino Unido as vantagens econômicas que os partidários do Brexit imaginavam.

O resultado foi paradoxal: Londres tornou-se simultaneamente mais distante da Europa e mais dependente de decisões tomadas em Washington.

Pela primeira vez em muitas décadas, o Reino Unido viu-se obrigado a repensar simultaneamente suas relações com a Europa e com os Estados Unidos.

Uma potência à procura de um novo lugar

A crise britânica possui ainda uma dimensão geopolítica mais ampla.

O mundo que permitiu ao Reino Unido exercer influência desproporcional ao tamanho de sua economia está mudando rapidamente.

A ascensão da China, o crescimento da Índia e o fortalecimento de outras potências emergentes vêm acelerando a transição para uma ordem internacional mais multipolar. O centro de gravidade da economia mundial desloca-se gradualmente para a Ásia, reduzindo o peso relativo das antigas potências ocidentais.

O Reino Unido continua sendo um país relevante. Possui universidades de excelência, capacidade tecnológica, instituições respeitadas e influência diplomática significativa. Mas já não ocupa a posição central que exerceu durante boa parte dos séculos XIX e XX.

Em muitos aspectos, a política britânica parece presa entre a nostalgia de um passado imperial e as exigências de uma nova realidade internacional.

A crise de representação

Existe ainda uma dimensão política frequentemente negligenciada.

A sucessão de primeiros-ministros revela uma crise de representação que atravessa não apenas o Reino Unido, mas boa parte das democracias ocidentais.

Os eleitores parecem cada vez menos convencidos pelas respostas oferecidas pelos partidos tradicionais. Governos mudam, lideranças se sucedem, mas muitos problemas permanecem.

O resultado é uma crescente sensação de frustração coletiva.

No caso britânico, conservadores e trabalhistas chegaram ao poder prometendo estabilidade, crescimento econômico e reconstrução dos serviços públicos. Nenhum conseguiu responder plenamente às expectativas criadas.

A consequência tem sido uma erosão contínua da confiança política.

A renúncia de Starmer deve ser compreendida nesse contexto. Ela não representa apenas o fracasso de um governo específico. É mais um capítulo de uma crise mais ampla que nenhum líder conseguiu resolver.

A lição britânica

Talvez a principal lição da experiência britânica seja que democracias não entram em crise apenas quando suas instituições deixam de funcionar. Elas também entram em crise quando continuam funcionando formalmente, mas deixam de oferecer respostas convincentes aos problemas da sociedade.

O Reino Unido continua sendo uma democracia sólida. Suas eleições são competitivas. Seus tribunais funcionam. A liberdade de imprensa permanece preservada. Mas a sucessão de primeiros-ministros revela algo mais profundo: a dificuldade crescente de construir consensos capazes de enfrentar desafios econômicos, sociais e geopolíticos cada vez mais complexos.

Os radicais, representados pelo partido Reform UK vêm ganhando espaço com suas bandeiras racistas, anti-imigrantista, comprometendo a imagem de um Reino Unido que outrora fora um país mais tolerante e inclusivo.

A verdadeira questão colocada pela renúncia de Keir Starmer não é quem será o próximo primeiro-ministro. A pergunta mais importante é outra: qual projeto nacional será capaz de reconciliar um país dividido, revitalizar uma economia marcada por décadas de desigualdade e redefinir o lugar do Reino Unido em uma ordem internacional em transformação?

A sucessão de líderes tornou-se apenas o sintoma mais visível de uma crise muito mais profunda. O desafio britânico já não é simplesmente mudar de governo. É reencontrar um rumo histórico.

FOTO: Simon Dawson / No 10 Downing Street / Open Government Licence v3.0

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/o-longo-declinio-britanico