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Parceria estratégica China-Rússia impulsiona o mundo multipolar

A visita de Vladimir Putin à China em 19 e 20 de maio, em que se reafirmou a Parceria Estratégica Abrangente de Coordenação para uma Nova Era, foi um acontecimento histórico, um sinal eloquente de que o mundo multipolar deixou de ser uma hipótese, uma promessa ou uma aspiração distante para se afirmar como realidade concreta e incontornável. Em Pequim, diante de um cenário internacional marcado por turbulências, guerras, sanções, chantagens financeiras e tentativas permanentes de imposição de uma única vontade ao restante do planeta, China e Rússia reafirmaram que há outro caminho possível: o da soberania, da cooperação, do equilíbrio entre potências e da reforma da governança global.

Por José Reinaldo Carvalho

O eixo geopolítico do planeta mudou. Enquanto as chancelarias ocidentais e a grande mídia corporativa tentam reduzir o encontro a uma mera aliança de conveniência ou a um “pacto de sobrevivência” de nações isoladas, a realidade dos fatos desenha um panorama distinto. O que se viu na capital chinesa foi o avanço do mundo multipolar. Aqueles que insistem em negar este fato objetivo operam, de forma consciente ou por profunda miopia teórica, como correias de transmissão ideológica do imperialismo estadunidense, cujo hegemonismo unilateral agoniza à vista de todos.

É preciso enfrentar, com a urgência que o momento histórico exige, as narrativas distorcidas que ecoam inclusive em certos setores da esquerda. Propaga-se em vários círculos uma tese fantasiosa que tenta enquadrar a China e a Rússia como novos vértices de uma suposta “pirâmide” imperialista global. Essa equivalência artificial ignora a dinâmica real do poder mundial e serve apenas para desarmar a resistência dos povos contra o verdadeiro motor da instabilidade global: o imperialismo estadunidense. Ao rotularem de “imperialistas” os dois gigantes que reagem à agressividade e ao hegemonismo, esses analistas de gabinete mascaram a centralidade do imperialismo norte-americano e sabotam as bases de uma solidariedade internacionalista concreta.

A parceria estratégica firmada entre Xi Jinping e Vladimir Putin atua justamente no sentido oposto ao das engrenagens de dominação tradicionais. A história registrará que a união profunda entre Pequim e Moscou constitui, hoje, um dos pilares mais sólidos na salvaguarda da soberania dos povos do Sul Global. Longe de representarem uma ameaça expansionista, a China e a Rússia emergem no cenário contemporâneo como as forças contracorrente que estabilizam as relações internacionais. Elas funcionam como diques de contenção contra o arbítrio das sanções unilaterais, das intervenções militares disfarçadas de missões humanitárias e da instrumentalização do sistema financeiro global como arma de guerra política.

É por isso que a cena política internacional precisa ser lida sem as lentes deformadoras da propaganda atlantista, à qual, lamentavelmente, alguns se submetem. Ao propor uma coordenação estratégica abrangente com a Rússia, Xi estabeleceu as quatro dimensões essenciais para uma nova etapa das relações bilaterais. A primeira é a consolidação da confiança política mútua e o fortalecimento do apoio estratégico recíproco. A segunda corresponde à ampliação da cooperação mutuamente benéfica, com foco no desenvolvimento e na revitalização de cada país. A terceira diz respeito aos intercâmbios interpessoais, considerados fundamentais para fortalecer as bases de uma amizade duradoura entre os povos chinês e russo. A quarta aponta para uma coordenação internacional mais intensa, com o objetivo de reformar e aprimorar a governança global.

Essa linha dá continuidade à definição oficial da relação sino-russa como uma “parceria estratégica abrangente de coordenação para uma nova era”, fórmula reiterada por Pequim em comunicados oficiais anteriores sobre encontros entre Xi e Putin.

Num mundo em que Washington se habituou a tratar aliados como vassalos, concorrentes como inimigos e países soberanos como peças descartáveis de seu tabuleiro geopolítico, China e Rússia dão outro exemplo. Não se trata de uma aliança submissa, de um pacto militar expansionista ou de uma relação de tutela. Trata-se de uma coordenação entre dois Estados que reconhecem seus interesses nacionais, suas diferenças e suas convergências, mas que compreendem que a estabilidade internacional depende da contenção do hegemonismo.

A cooperação mutuamente benéfica, desmonta um dos mitos favoritos dos porta-vozes do imperialismo: a ideia de que toda relação entre grandes potências reproduz necessariamente exploração, dependência e saque.

A coordenação internacional para reformar e aprimorar a governança global, foi um dos principais aspectos da visita. Pequim e Moscou, para além de concluírem acordos nas áreas de comércio, energia, tecnologia ou infraestrutura, conversaram sobre a necessária reorganização das regras do sistema internacional e como tornar a governança global mais justa e equitativa. A grande questão é como devolver ao multilateralismo um conteúdo real, e não a caricatura usada por Washington quando deseja obrigar o mundo inteiro a obedecer às suas sanções unilaterais. Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, China e Rússia têm responsabilidade especial na defesa de uma ordem mais equilibrada. Essa condição não é detalhe protocolar. É um fator estrutural da disputa em curso.

Xi foi direto ao diagnóstico. “A situação internacional é fluida e turbulenta”, afirmou. E acrescentou: “O unilateralismo e o hegemonismo estão ressurgindo, mas a paz, o desenvolvimento e a cooperação continuam sendo a aspiração dos povos e a tendência predominante de nossa época”. Não há, nessa formulação, qualquer ingenuidade. Há uma leitura precisa da contradição central do nosso tempo. De um lado, forças que tentam preservar privilégios coloniais por meios financeiros, militares, tecnológicos e midiáticos. De outro, países que reivindicam desenvolvimento, soberania e participação na definição das regras internacionais. A turbulência atual não nasce do avanço do mundo multipolar. Nasce da resistência desesperada da velha ordem unipolar em aceitar que seu monopólio terminou.

É exatamente por isso que a visita de Putin à China desmascara aqueles que negam a consolidação do mundo multipolar. Mesmo quando se apresenta como prudência, ceticismo ou “realismo”, essa negação termina servindo à narrativa imperialista segundo a qual não há alternativa possível à supremacia estadunidense porquanto esta seria invencível. Ora, se o mundo multipolar não existe, resta apenas administrar a decadência sob comando de Washington. Se China e Rússia não são polos de contenção ao unilateralismo, resta apenas aceitar que sanções, cercos militares e guerras por procuração sejam tratados como mecanismos normais da política internacional. Essa é a armadilha ideológica que precisa ser enfrentada.

A parceria sino-russa não elimina contradições do sistema internacional, não resolve automaticamente todos os conflitos e não inaugura, por decreto, um mundo justo. Nem abarca todos os vetores da luta anti-imperialista, porque esta depende principalmente da mobilização dos povos em cada país e em ações conjuntas. Mas ela cria condições concretas para limitar o poder de coerção do imperialismo. E isso, para qualquer força verdadeiramente anti-imperialista, é decisivo. Quem não compreende esse ponto se perde em abstrações. A política internacional se mede  por correlação de forças. E, nessa correlação, a aproximação entre China e Rússia amplia a margem de manobra de países submetidos durante décadas a chantagens econômicas, golpes patrocinados, bloqueios, intervenções e campanhas de desestabilização.

A China e a Rússia aparecem, nesse quadro, como pilares de uma nova governança global porque sua atuação conjunta desloca o centro de gravidade do sistema internacional. Ao defender uma governança mais equilibrada, ao fortalecer mecanismos de cooperação, ao ampliar o uso de moedas nacionais no comércio bilateral e ao resistir à lógica das sanções unilaterais, Pequim e Moscou contribuem para uma arquitetura internacional menos dependente do dólar, da Otan e dos centros financeiros ocidentais. Esse movimento é observado também no crescimento do comércio bilateral e na busca de alternativas de pagamento fora da órbita direta do sistema financeiro dominado pelo Ocidente e no empenho pelo soerguimento de novas instituições políticas em que seja possível democratizar as relações internacionais.

A oposição a essa realidade assume duas formas. A primeira vem da direita atlanticista, que enxerga qualquer gesto de autonomia como ameaça. Para ela, o problema não é a guerra, mas a perda do monopólio das potências imperialistas ocidentais sobre a guerra. O problema não é a violação do direito internacional, mas o fato de que outros países comecem a exigir que o direito internacional valha também contra os poderosos. A segunda forma, mais sofisticada e por isso mesmo mais perigosa, vem de setores que, apresentando-se como de esquerda, em nome de uma crítica abstrata a todos os Estados, da fragmentação das lutas dos povos, da separação das dimensões antifascista e anti-imperialista dessas lutas, ao brandir os “direitos humanos” contra a China e pregar uma posição anti-Rússia na guerra da Ucrânia, obstaculizam a luta anti-imperialista concreta. São os que falam em “todos os imperialismos” para evitar nomear o imperialismo realmente existente, aquele que mantém centenas de bases militares fora de suas fronteiras, impõe bloqueios, lidera alianças militares expansionistas e transforma o sistema financeiro em arma de guerra.

Essa falsa equivalência precisa ser combatida sem meias palavras. Não há simetria entre a política externa dos Estados Unidos e a coordenação estratégica sino-russa. Não há equivalência entre cercar militarmente continentes inteiros e defender reformas na governança global. Não há identidade entre impor sanções extraterritoriais e buscar mecanismos alternativos de cooperação. A tentativa de colocar China e Rússia dentro de uma “pirâmide imperialista” é, no fundo, uma recusa a enxergar a dinâmica concreta da luta mundial. É uma tese que pode soar radical em pequenos auditórios inflamados, mas que na prática desarma politicamente os povos diante da potência que segue ocupando o centro do sistema imperial. O mesmo efeito negativo para a luta anti-imperialista advém daqueles que enxergam no processo de consolidação do mundo multipolar uma infindável “transição”, artifício retórico para justificar políticas de conciliação.

O Presidente Xi Jinping foi claro ao apontar a responsabilidade histórica dos dois países. “Como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e importantes potências mundiais, a China e a Rússia devem adotar uma perspectiva estratégica de longo prazo, impulsionar o desenvolvimento e a revitalização de seus respectivos países por meio de uma coordenação estratégica abrangente de ainda maior qualidade e trabalhar para tornar o sistema de governança global mais justo e equitativo”, declarou. Essa afirmação sintetiza o sentido da visita: potencializar a parceria estratégica como um dos motores da revitalização nacional de cada país e da transformação da ordem internacional.

Os críticos dirão que esta parceria estratégica aumenta tensões, uma acusação inverte causa e consequência. O que produziu a crise do sistema internacional não foi a cooperação entre China e Rússia. Foi a insistência dos países imperialistas ocidentais em congelar o mundo no pós-Guerra Fria, como se a história tivesse terminado sob comando de Washington. Foi a expansão de alianças militares, a multiplicação de sanções, a instrumentalização de organismos internacionais, a imposição de modelos econômicos e políticos por pressão externa. A multipolaridade não é a causa da instabilidade. Ela é a resposta histórica à instabilidade produzida pelo unilateralismo.

Também dirão que a parceria sino-russa ameaça a “ordem internacional baseada em regras”. Mas quais regras? As regras que permitem aos Estados Unidos invadir países sem autorização do Conselho de Segurança? As regras que aceitam bloqueios econômicos contra povos inteiros? As regras que transformam reservas internacionais em ativos confiscáveis ao sabor de decisões políticas do Ocidente? As regras que tratam a soberania como privilégio de poucos e obrigação de obediência para muitos? A expressão “ordem baseada em regras” tornou-se um eufemismo para uma ordem em que as regras são escritas por alguns, aplicadas contra outros e suspensas quando deixam de servir aos interesses dos poderosos.

A visita de Putin à China deve ser entendida como parte de um processo maior: a emergência de um mundo em que o poder se distribui de forma mais plural. Esse processo não será linear, pacífico ou isento de disputas. Nenhuma transição histórica dessa magnitude ocorre sem resistência. Mas o rumo é visível. O eixo imperialista liderado pelos Estados Unidos já não consegue comandar sozinho a economia mundial, definir sozinho os padrões tecnológicos, impor sozinho sua visão política ou disciplinar sozinho os países que buscam autonomia. O Sul Global se move. E cada gesto de coordenação entre Pequim e Moscou amplia esse espaço de manobra.

A luta anti-imperialista encontra na parceria estratégica entre China e Rússia uma força aliada porque essa parceria enfraquece a capacidade de coerção da potência hegemônica. Quando o velho mundo tenta sobreviver pela força, pela chantagem e pela mentira, a construção de polos alternativos de poder é uma condição para que a paz, o desenvolvimento e a cooperação deixem de ser slogans e se tornem possibilidades concretas.

A visita de Putin à China, portanto, foi um retrato do mundo que nasce. Pequim e Moscou não pedem licença para existir como potências soberanas. Elas afirmam, diante da turbulência global, que a humanidade não está condenada a viver sob uma única bandeira, uma única moeda, uma única aliança militar e uma única narrativa. É essa a mensagem que incomoda. E é exatamente por isso que ela precisa ser compreendida em toda a sua força histórica.

Por todas essas razões, a esquerda consequente e as forças progressistas do Sul Global precisam abandonar as vacilações teóricas e compreender o caráter estratégico do momento. A aliança defensiva e construtiva estabelecida entre a China e a Rússia não é um detalhe na paisagem; ela constitui o motor material e o escudo geopolítico indispensável para a engrenagem da luta anti-imperialista contemporânea. Sem a existência desses dois gigantes e de sua firme disposição de resistir às pressões, as experiências de soberania na América Latina, na África e no Oriente Médio estariam irremediavelmente asfixiadas pelo garrote econômico e militar do Norte Global.

Foto: 黄敬文 Xinhua

FONTE: https://www.brasil247.com/blog/parceria-estrategica-china-russia-impulsiona-o-mundo-multipolar