“A luta política será, essencialmente, o embate entre soberania nacionalista e entreguismo bolsonarista fascista apoiado pelo trumpismo imperialista”.
O presidente Lula e o coordenador do seu programa de governo, Sérgio Gabrieli, estão dando o tom nacionalista da nova economia que virá, se o quarto mandato lulista for alcançado, como anunciam previamente todas as pesquisas disponíveis, diante das derrapadas decisivas do adversário, o senador do PL, Flávio Bolsonaro, que dividem direita e ultradireita no início da campanha eleitoral.
Na convenção do PDT, que marca o início da jornada, nesta segunda-feira, o presidente exaltou os nacionalistas Getúlio Vargas e Leonel Brizola, respectivamente, criador e discípulo do trabalhismo, antecessor do petismo; para Lula, Vargas foi o maior presidente, que inaugurou o Estado Nacional, com o advento da Revolução de 1930, por ele comandada ao lado dos tenentistas, para enterrar a República Velha.
Ali começou a jornada trabalhista, marco inicial do nacionalismo, a partir do lançamento da legislação social, com a criação do Ministério do Trabalho; na sequência, vieram as bases das empresas estatais do petróleo e, depois, a de eletricidade; estava dado o início do movimento desenvolvimentista, com a energia como instrumento essencial do novo Brasil.
A industrialização brasileira requeria duas conquistas fundamentais: a nova legislação do trabalho, para garantir direitos e deveres dos trabalhadores, como dos empresários, e a semente desenvolvimentista representada pela exploração do petróleo, com a Petrobrás, lançada logo no desdobrar da revolução, em 1933.
Ao lado dessas providências indispensáveis à mobilização de capital para alavancar o desenvolvimento, Getúlio Vargas convocou os credores do Estado Nacional, basicamente os bancos ingleses, para realizar a auditoria da dívida pública.
Esse passo possibilitou um desconto de perto de 60% do endividamento público, pois o governo revolucionário identificou, na especulação financeira inglesa, a acumulação de capital primitiva do sistema financeiro internacional, razão principal que impedia o desenvolvimento nacional sustentável.
Auditoria, passo fundamental para desenvolvimento capitalista
Realizada a auditoria da dívida pública, Getúlio abriu espaço para a economia crescer mais de 7% ao ano até 1946, quando conduziu a sucessão, fazendo de seu sucessor o general Gaspar Dutra, para impedir os udenistas, apoiados pelos Estados Unidos, com seu programa privatista.
Dutra, como se sabe, historicamente, foi tiro no pé, mas significou a arma getulista para impedir a UDN de chegar ao poder; o general, filiado ao PSD, criado por Getúlio junto com o PTB, rasgou o programa nacionalista getulista, especialmente quando decidiu queimar reservas cambiais acumuladas por Vargas depois da auditoria da dívida.
Dutra renegou o nacionalismo, sob pressão de Washington, produzindo o movimento pela volta do varguismo, denominado “Queremismo”, “Queremos Getúlio de volta”.
A volta triunfal de Getúlio, em 1950, decorreu do desastre econômico de Gaspar Dutra, mas a conjuntura internacional contra o varguismo, como destaca José Augusto Ribeiro, na trilogia “A Era Vargas” (Ed. Folha Dirigida), já estava armada, especialmente depois da morte do presidente Roosevelt (1953).
Os americanos, fortes na segunda guerra, com o dólar dando as cartas nas relações monetárias, mudaram sua orientação relativa ao trabalhismo getulista, anti-Hitler, admirado por Roosevelt, visto como ameaça aos Estados Unidos na América do Sul, conforme conceito da Doutrina Monroe.
A pressão americana, com sua aliada interna, a UDN (o bolsonarismo da época), e seu líder, Carlos Lacerda, prepararia o golpe de 1954, para levar o presidente ao suicídio, como resistência à renúncia pela Petrobrás nacionalista.
Getúlio, com sua morte, atrasou em dez anos o golpe antinacionalista que viria em 1964, para derrubar o governo constitucional de Jango Goulart, articulado pelo governo americano e seus aliados udenistas.
Novo cenário: Doutrina Monroe ameaça Lula
O lulismo (2003-2016 e 2023-2026), admirador do nacionalismo varguista, anti-Doutrina Monroe, está, no início da campanha eleitoral de 2026, deixando seu recado aos neoliberais da Faria Lima, herdeiros da UDN; o coordenador da campanha do presidente, Sérgio Gabrieli, ex-presidente da Petrobras, visitou os banqueiros para dizer que, se Lula ganhar em outubro, o quadro atual, marcado pelo arcabouço neoliberal, não será mais o mesmo que está em vigor.
O coordenador destacou que o novo programa lulista visa o Estado forte, e não o Estado mínimo, fraco, privatista, pregado pelos bolsonaristas, propensos a entregá-lo de bandeja ao presidente Trump, cujo olhar imperialista se volta para a recolonização brasileira, com domínio sobre petróleo, minerais e terras raras, junto com o tarifaço, como preço a pagar pelos exportadores brasileiros para ajudar à reindustrialização americana.
Haveria, portanto, reversão ao movimento golpista de derrubada da ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016, encabeçado pelos neoliberais privatistas, como Michel Temer, seguido por Jair Messias Bolsonaro, cujo destino foi a prisão por tentar dar golpe na democracia em 2022, resistindo à entrega do poder ao presidente Lula, a partir de 2023.
Gabrieli destacou ainda, segundo o repórter Lauro Jardim, do Globo, que a estratégia econômica, no quarto mandato lulista, combaterá os juros altos, principal bombeador da dívida pública especulativa, raiz do déficit público nominal — primário e financeiro —, fato que alteraria os critérios para cálculo do ajuste fiscal; como se sabe, atualmente, o esforço para combater o déficit centra-se no corte de gastos sociais, enquanto são imexíveis os gastos financeiros; o problema, no entanto, é que, enquanto o déficit financeiro especulativo representa 9% do PIB, o déficit primário, dos gastos sociais, não chega aos 2% do PIB; ou seja, a prioridade, segundo Gabrieli, será outra: o combate aos juros altos, bombeados pelos juros extorsivos, causa principal do déficit fiscal, e não os gastos primários, responsáveis por puxar a demanda global desenvolvimentista.
Recado contra imperialismo trumpista
O recado de Gabrieli à Faria Lima, portanto, é o oposto do que diz o bolsonarismo fascista, que defende a orientação neoliberal ditada pelo FED — Banco Central americano —, sob as ordens do Consenso de Washington, reforçado pelo neocolonialismo trumpista: metas inflacionárias, câmbio flutuante e superávit primário, estratégia antinacionalista vigente desde a Era FHC, cuja missão essencial foi dar cabo da Era Vargas, objetivo central de Washington para combater o nacionalismo.
Gabrieli antecipa a luta política que está por vir, diante de eventual vitória eleitoral lulista, que incomoda o presidente Donald Trump em sua cruzada imperialista neocolonial, colocada em prática, especialmente, pelo secretário de Estado, Marco Rubio, a quem Lula chamou de latino-americano frustrado.
O desafio levantado pelo presidente brasileiro ao presidente Trump e ao seu secretário de Estado ficou explícito durante a convenção do PDT, quando sugeriu a Rubio que, como cabo eleitoral do bolsonarismo, abrisse comitê eleitoral no Brasil, para enfrentá-lo como adversário nas urnas em outubro.
Lula, portanto, escolheu a base eleitoral trabalhista, herdeira de Getúlio e de Brizola, para defender a soberania nacional, ameaçada pelo tarifaço e pela Doutrina Monroe.
A luta política será, essencialmente, o embate entre soberania nacionalista e entreguismo bolsonarista fascista apoiado pelo trumpismo imperialista.
FOTO: Ricardo Stuckert / PR | Divulgação
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/quarto-mandato-pautara-nacionalismo-desenvolvimentista-contra-trumpismo-imperialista/